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Um conto de xenofobia

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_Uma palhaça! Uma verdadeira palhaça!

Essa foi a expressão de Maria Cristina diante do espelho ao ver a maquiagem de caveira mexicana que eu tinha feito em seu rosto para a festa de Halloween da escola. De fato, aquela tinta branca me fazia lembrar mesmo um palhaço. Com total espanto e umas pitadas do melhor drama latino-americano, “Tina” fez uma cara de quem ia começar a chorar. Vestida com uma roupa cor-de-rosa brilhante e flores no cabelo, cansada, ela sentou-se na cama e pegou um lenço para limpar a maquiagem.

_Pode deixar… Eu não estava querendo ir nessa festa mesmo. Quero ficar em casa, quero chorar…

Eu tirei o lenço da sua mão, olhei bem para ela e, depois de alguns minutos de conversa, consegui convencê-la a sair. E é nesse cenário e num espaço-tempo de uma noite e uma manhã, que entrei na vida dela, a mulher com mais força de vontade que eu já tinha conhecido.

Aos 38 anos e nascida na Venezuela, Maria Cristina formou-se em Ciências Contábeis, em Caracas, largou a vida por lá e foi viver uma nova experiência na Irlanda, depois do divórcio de um casamento de dez anos. Maria era engraçadíssima – mesmo nos seus momentos de dor, eu morria de rir com ela. Era muito inteligente e também dotada de uma beleza muito típica do seu país, a mulher de cabelos negros e rosto bonito, tinha um dos corpos mais torneados que eu já vi. Maria chamava naturalmente a atenção e, independente, era mil em uma só. Como toda Maria, fazia de tudo e mais um pouco. Acordava cedo, ia para as aulas de inglês (obrigatórias para manter o visto de estudante no país europeu), e, em seguida, ia fazer limpeza em casas e escritórios na capital irlandesa. À noite, Maria também estava trabalhando.

_Com o quê eu trabalho? Com o quê eu “não” trabalho, seria melhor você me perguntar!

Em um mês, já fui “dogwalker”, passeando com dois cães boxer por aí à noite, já fui dançarina numa boate e também garçonete em um restaurante chinês. Mas isso foi antes e depois de conhecer ele. (…) Ai… Eu disse que não ia falar dele, né? Me ajuda… Mas, olha, já que não consigo, vou te contar tudo de uma vez. Foi assim: Nos conhecemos quando eu era dançarina no canal de TV irlandês que a mãe dele é diretora. Foi amor à primeira vista.

Peter era o nome dele. Um jornalista irlandês de 35 anos, loiro, olhos azuis e com uma fisionomia muito simpática e querida. No entanto, Peter tinha um segredo tão secreto que ninguém era capaz de notar no início do relacionamento. Peter era xenófobo e tinha uma namorada de outro país.

A xenofobia, preconceito que se caracteriza pela aversão, repúdio ou ódio à pessoas estrangeiras, corresponde a um problema social baseado na intolerância com determinadas nacionalidades ou culturas.  É um problema social e político que vem ganhando proporções cada vez maiores, gerando uma ampla discussão internacional sobre o assunto na atualidade.

_Talvez nem tenha sido o fato de ser de outro país. Talvez tenha sido por eu dançar na TV de maiô. Ele já tinha me dito que a mãe dele falou que era melhor ele arrumar uma mulher da sociedade dublinense.

Maria Cristina havia largado tudo a pedido do então namorado e ido com ele para a França, onde o rapaz tinha aceitado uma proposta de trabalho. Durante quase um ano, os dois viveram felizes e com a promessa de casamento breve. Tina, que não possuía visto definitivo para ficar na Europa, tinha que estar sempre estudando. Peter, porém, a havia proposto em casamento e, a partir daí, tudo tinha ganhado uma perspectiva diferente.

_Ele disse que eu não precisava economizar para comprar meu curso anual, que a gente se casaria e eu não precisaria me preocupar com o visto. Eu, que sempre paguei a escola, disse que não tinha problema nenhum, mas ele insistiu. Dessa forma, eu não guardei dinheiro e, de pouco em pouco, gastei todas as minhas economias. Ele disse que não tinha problema, pois nós dois éramos um. Como eu pude ser tão idiota?

Saímos de casa e ela foi me contando sua história pelo caminho, enquanto passávamos pelas ruas molhadas de Dublin e nos dirigíamos à festa. Pessoas alvoroçadas em todas as esquinas exaltavam a data e a tradição local.

_Acontece que ele perdeu o emprego na França e tivemos que voltar para Dublin. Quando a gente chegou, tudo estava diferente. Já não tínhamos lugar para ficar, pois eu tinha passado o meu apartamento para uma amiga que morava com o namorado, ou seja, eu não tinha mais nada! Foi aí que veio a primeira facada: Ele me disse que ia morar na casa da mãe dele. E eu?‘, perguntei. Então ele falou que não poderia me levar porque não era a casa dele, que eu tinha que me “ajeitar” em outro lugar. Você acredita?“. Maria contava indignada.

Pior que eu acreditei. No tempo que vivi em Dublin, essa não foi a primeira história que ouvi parecida. Uma outra colega de escola tinha vivido alguns meses com um outro rapaz que, na hora que teve que apresentar a garota brasileira para a família, preferiu terminar com ela.

_Ele disse que não poderia me ajudar mais porque estava sem emprego. Ok. Então eu falei que ia voltar a dançar e ele ficou louco! Disse que não ia namorar uma dançarina! O mais estranho é que ele me conheceu assim, depois ficou com vergonha de mim. Eu só queria resolver a questão financeira, afinal, eu já tinha os meus contatos e não tínhamos mesmo mais dinheiro. Agora, o pior, você não acredita! Algumas semanas depois, ele me pediu de volta uma quantia que havia me emprestado por livre e espontânea vontade. Eu não sabia o que fazer! Eu sei que, nessa confusão toda de dinheiro e pressão psicológica, ele terminou – disse que não poderia casar comigo.

Continuamos a conversa no dia seguinte à festa. Sentadas na mesa de café da manhã que ela mesma havia preparado, eu sabia que aqueles olhos eram mais de tristeza do que de ressaca.

_Agora você me diz: o que ele é? Ele é um menino, um moleque! No meu país, por pior que as coisas sejam, isso não acontece! Se o homem dá a sua palavra, ele precisa cumprir! Agora estou eu aqui, devendo uma amiga que me ajudou a arrumar o dinheiro da escola para eu não ser deportada! Mas graças a Deus, consegui os trabalhos, da limpeza e os bicos da noite para poder me manter e pagar tudo… Só que eu ainda não acredito que ele tenha feito isso…

E durante alguns meses, aquele discurso foi o mesmo. Maria Cristina realmente amava muito Peter. Falava dele o tempo todo e chorava bastante. Ela não teve muita sorte nesse caso e, independente de nacionalidade, ela tinha conhecido um cara idiota, desses que existem em todos os lugares. Foram necessárias muitas noites acordada, chegando cansada de manhã na escola, para ela entender o que estava claro para mim há muito tempo. Um dia, depois de uma conversa, ela me disse:

_Eu sei que ele tem vergonha de mim. Vergonha porque eu dançava e vergonha porque gosto de cores mesmo, de roupas coloridas e tudo mais! Ele ficava querendo controlar minhas roupas! Tinha vergonha porque eu pintava o cabelo, pedia para eu voltar à cor natural. Vergonha porque, mesmo se eu fosse recatada e sofisticada, ele ainda teria a mesma vergonha por eu ser latino-americana, que todos os homens desejam, mas não assumem.

Eu via que ela estava cansada e que não tinha nenhuma esperança nem vontade de seguir adiante. Seu país vivia o caos e uma crise econômica sem precedentes e ela ajudava, de longe, sua família. Eu sabia que Maria era maior que aquilo tudo, mas ela ainda insistia em sofrer sem necessidade:

_Ontem, Peter me mandou por mensagem algo que eu jamais irei esquecer. Ele me disse “Desejo tudo de bom a você. Espero que agora você pare de usar o seu corpo bonito e comece a usar o seu bonito cérebro”.

Eu nunca tinha visto nada tão machista. Infelizmente, o que eu via ali era mais um exemplo de como alguns homens tratam uma parcela das mulheres imigrantes de países não desenvolvidos. Brasileiras, colombianas, filipinas, tailandesas… São tantas vistas por mentes doentes apenas como um fetiche, que nem vale a pena entrar nesse assunto. O que as pessoas não veem, nem mesmo essas próprias mulheres, é o quanto elas são fortes, decididas e poderosas. Elas têm um brilho próprio, compram briga, entram de cabeça, sofrem tudo e depois, uma hora, encontram a mola do poço e, meu amigo, aí ninguém segura! Coitado do cara que, um dia, por ser um idiota, um babaca qualquer, não for capaz de ser firme consigo mesmo e deixar passar uma mulher dessas – ela é para poucos.

Algum tempo depois, Maria Cláudia largou as classes de idioma e inscreveu-se na faculdade. Começou a estudar educação física, e, não demorou muito para que já desse aulas como personal trainer em uma grande academia da capital irlandesa. Ela tinha mudado de vida, de profissão, de cor de cabelo e de perspectiva. Maria estava usando mais do que nunca o seu corpo bonito, porque o bonito cérebro ela já utilizava desde quando decidiu nunca mais dar ideia para caras como Peter. Na academia, vestia livre as suas roupas coloridas e, muito além de ser um símbolo sexual, ela era, orgulho para si mesma, para as mulheres do seu país e para tantas outras.

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras ♥️.

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