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One gelatto a day, keeps the doctor away – A conquista da cidadania italiana

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O relato da brasileira que correu atrás da sua própria história, priorizou sua saúde mental e emocional, e hoje ajuda outras pessoas a conseguirem a sonhada cidadania italiana

 

O Brasil é um país que comporta milhões de descendentes de imigrantes europeus, sendo, grande parte, originários da Itália. O país é uma das nações que reconhecem a cidadania pelo conceito de jus sanguini, ou seja, o direito de sangue. Isso começou graças à lei número 91, de 15 de fevereiro de 1992 e, a partir daí, muitos brasileiros que possuem descendência italiana têm ido em busca da dupla-cidadania. Apesar de ser uma prática mais comum hoje em dia, inúmeros são os casos de demora para obtenção dos documentos, dificuldades na pesquisa e situações envolvendo até mesmo corrupção. O caminho para a obtenção da cidadania nem sempre é fácil, mas vale muito à pena. Para ilustrar mais sobre essa saga, conversamos com a ítalo-brasileira Míriam Dall’Asta. Chegue mais! Pegue um capuccino e… Andiamo! Venha conferir essa história com a gente!

Saúde mental importa, e muito!

Nascida em Santa Catarina, Míriam abandonou o trabalho em um banco para ajudar brasileiros que também têm o mesmo sonho de morar na Europa. Atualmente, ela reside na cidade de Padova, na Itália, onde trabalha com consultoria e pesquisa para aqueles que têm o direito ao passaporte italiano. Mas nem tudo foi sempre fácil para a mulher que aos 40 anos já era mãe de um filho adolescente. Em um papo descontraído, ela nos conta um pouco da sua trajetória e por que resolveu seguir esse caminho. “Eu trabalhava em Santa Catarina para um banco numa posição de muito estresse, tomando remédios para ansiedade, insônia, pânico… Até o dia em que me vi no limite.

“A relação com meu filho estava horrível, a ponto dele chegar a cuidar de mim uma vez. Eu estava tão sobrecarregada que sofria de síndrome do pânico, taquicardia, medo de morrer, sentia asfixia e tinha que dormir com todas as janelas abertas, mesmo no frio de Santa Catarina. Era uma situação de estresse total e eu me vi realmente no limite”, conta.

Certa de que a única opção seria priorizar a sua saúde mental e emocional, Míriam pediu demissão do banco. “Mesmo depois que saí do emprego, fiquei muito mal psicologicamente. Não conseguia dormir. Decidi mudar de ramo e ir para São Paulo estudar Comércio Exterior. Porém, durante muito tempo, procurei emprego nessa área e não encontrei nada. Me vi tendo que voltar para a casa dos meus pais com meu filho, e as crises de pânico eram cada vez mais constantes. Depois de todas essas tentativas frustradas, não via mesmo mais esperança no mercado de trabalho. Eu precisava cuidar, pelo menos, da minha saúde. A solução foi um curso de mergulho no Rio, que me ajudou bastante nas crises de pânico, no controle e ritmo respiratório e, automaticamente, a relaxar”, conta a catarinense.

Dolce far… tutto!

A partir daí, Miriam resolveu ir atrás do sonho de morar na Europa e, assim, ter um ritmo de vida mais tranquilo para ela e seu filho. “Comecei a correr atrás da documentação da família Dall’Asta para pegar a minha cidadania italiana. A primeira dificuldade foi quando todos desacreditaram de mim, porque ninguém nunca tinha encontrado os documentos até então. O que sabíamos é que a Igreja tinha botado fogo em tudo que havíamos de pistas.

“Ninguém acreditava que eu ia encontrar os documentos para pegar meu passaporte italiano”, conta a consultora.

Mas Míriam relata que uma vez sua mãe falou para as pessoas da família “Quando a minha filha coloca uma ideia na cabeça, ela vai e consegue!”. E foi assim mesmo. “Contratei um pesquisador para encontrar meus documentos – o mesmo trabalho que eu faço aqui na Itália hoje -, e consegui! Ninguém acreditava que eu ia conseguir, que eu ia vender tudo que eu tinha e ir para a Itália. E foi exatamente isso que eu fiz!

“Peguei a documentação toda e falei ‘estou indo para a Itália e não volto mais!’.

Então saí vendendo minhas roupas e sapatos – como tinha sempre que trabalhar bem vestida, eu tinha coisas boas – e assim fiz um brechó e vendi para as minhas amigas. Vendi também o meu carro. Arrumei minhas malas e vim! Simples assim. Depois de 20 dias veio o meu filho e, juntos, demos entrada na cidadania”, revela. Ela encontrou e reinventou sua história das cinzas, literalmente.

Apesar de já estar na Itália, e ser quase impossível ter algo de ruim a se dizer do país da gastronomia mais perfeita, do vinho, da arte, da moda, da natureza bellíssima… Ela conta como tudo foi muito difícil no início. “Cheguei com 7 mil euros para ficar. Como não podia trabalhar no período em que ainda não tinha o passaporte, só depois que peguei a documentação é que comecei a procurar emprego nos sites específicos, a fazer faxina e a trabalhar de baby sitter. Eu achei bem difícil encontrar trabalho, mesmo. Distribuí muitos currículos, mas não me chamaram”, relata a mulher que hoje tem seu próprio negócio.

Sobre o universo feminino na Itália, muito se fala de como os hábitos são semelhantes aos do Brasil, como o machismo está bastante presente na sociedade, embora o charme e encantamento dos italianos sejam os assuntos mais comentados nesse quesito. “Algo que me intriga é ouvir tantas histórias de traições e separações, muitos casos por parte das esposas que se casam muito cedo. Conversando com alguns amigos italianos, os comentários são de que as mulheres sempre querem casar cedo porque se não ficam mal faladas nas cidadezinhas, ‘que ninguém a escolheu para casar’, como uma pressão da sociedade. Mesmo sem ter um grande sentimento, parece que o principal é ter um marido e que esteja bem financeiramente. Mas chegam aos 40 anos, mesmo com filhos, chutam o balde e resolvem aproveitar a vida. Lembrando que não se pode generalizar, mas conheci várias pessoas que se enquadram nessa situação.”, revela. Quando perguntada se já sofreu algum preconceito por ser estrangeira, ela conta algo já esperado.

“Já ouvi muito ‘Ah! Então você trabalha aqui porque se casou com um italiano?’. Não! Não casei. Peguei a minha documentação que é minha por direito”, conta Míriam.

“No início, eu ficava brava com esses comentários, mas agora não, porque a questão é a gente saber se portar sem depender do que pensam ou não”, pontua.

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Quando falamos sobre os prós e contras de morar fora do Brasil, Míriam conta que sente saudades do clima e da natureza, das praias, da família e dos amigos, mas que hoje preza pela sua saúde mental e qualidade de vida. “É tudo muito diferente do Brasil, principalmente a questão da igualdade econômica. Não que não tenha nada de preconceito, mas não é tão visto como uma divisão de classes, como é de onde eu vim e do Brasil em geral, infelizmente. Não vejo um diferenciamento entre classes e profissões ‘melhores ou piores’”, conta. A questão da educação é algo que chama bastante a atenção de Míriam. “Vejo muito os adolescentes lendo no trem e isso é bem legal”, relata a mulher que ajudou a modificar sua qualidade de vida e, consequentemente, sua trajetória. E, você lembra de quando ela disse que ninguém acreditava que ia conseguir e que tudo parecia um despropósito impossível? Então… Não para ela! Míriam simplesmente foi e fez, assim como muitas de nós quando não ligamos para o que os outros dizem. Feito na música do cantor italiano Ligabue “Sono sempre i sogni a dare forma al mondo” (são sempre os sonhos que dão forma ao mundo). Attraversiamo!

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras ♥️.

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