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Irlanda e a fina chuva diária do autoconhecimento

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Reflexão em forma de solidão: o relato de uma brasileira e os dois lados da experiência de se viver na Irlanda

 

Às vezes é preciso ir longe para se reconhecer o que se tem por perto, por dentro, tão dentro quanto um batimento cardíaco. Aliás, quanto mesmo pesa um coração? 250, 300 gramas? Há momentos que ele pode pesar muito mais do que isso. E são esses momentos que nos chamam para algo maior, assim, de repente. Quando tudo parece não fazer muito sentido, uma simples oportunidade te pega e te leva, te transforma ou te revela. Para sempre!
Com Poliana aconteceu mais ou menos assim. Quando tudo parecia estar no momento certo, a vontade antiga de viver uma experiência fora do país veio como oportunidade em convite amigo. O país? Irlanda. Cenário cinematográfico. Cenário de muito aprendizado, de olhar para si mesmo e para fora, de doses extras de autoconhecimento e muita, muita gratidão. “Minha amiga já estava lá e me deu um norte. Foi a melhor opção custo beneficio, pois me possibilitava trabalhar e estudar.

“Viver na Irlanda foi, sem dúvida, a melhor experiência da minha vida”, conta a mineira de Belo Horizonte.

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Formada em moda, aos 30 anos, Poliana Bittencourt tem sua própria startup e é empreendedora na capital mineira. Workaholic, conta que, um momento bem difícil foi arrumar trabalho nas terras verdes e frias. Segundo ela, mesmo estando disposta a qualquer coisa, conseguir o primeiro trabalho foi muito difícil, devido a vários fatores, como a barreira da língua. “Isso me ensinou muito como ser humano. A princípio, eu acreditava ser humilhante aceitar qualquer tipo de trabalho e, mesmo assim, não conseguir. Foi bem transformador. Você precisa ser bem mais forte que qualquer outra coisa”, conta.
Seu primeiro emprego foi como au pair em uma cidade do interior, em Connemara, onde a jovem precisou cuidar de uma criança e morava com a família irlandesa. Ela conta que foi uma quebra de preconceitos que nem mesmo ela sabia que possuía. “Essa experiência foi muito importante para me ajudar a perceber o quanto qualquer trabalho é muito digno e ninguém é melhor que ninguém”, ressalta. Entre outras revelações, ela conta que nunca tinha se imaginado cuidando de uma criança e ajudando nos afazeres da casa.
O fato de estar só em um país distante, longe de todos e ainda com a barreira da língua, gera muitas inseguranças. Segundo Poliana, existia, ainda, o medo por ser mulher.

“Sempre rola o medo de trabalhar na casa da família e ficar sozinha com o pai. Dá um medo, de fato, uma insegurança, porque a gente sabe que há um risco. Existem estatísticas mundiais e não dá para ignorar.

“No entanto, o povo irlandês, em si, me ensinou bastante. A sociedade irlandesa é mais respeitosa e você se sente mais livre”, relata a consultora. A jovem ainda ressalta que a Irlanda a transformou muito enquanto mulher, a inspirou e a empoderou bastante.

“Nunca vou me esquecer de quando uma das mães das famílias que morei me disse ‘You are the boss. We have the power!’ (você que manda. Nós temos o poder!), quando eu passava por momentos de depressão e ansiedade devido a um relacionamento abusivo”, conta.

Essa experiência de ver como as mulheres de lá a empoderavam com seus pensamentos e postura social, ela conta que vai guardar para toda a vida. De fato, a sociedade irlandesa é um exemplo de força feminina e igualdade de gênero. Um dos países mais católicos do mundo não sustenta o estereótipo de que a religião é um empecilho para o avanço da sociedade. Com sua pouca extensão territorial, a Irlanda fica isolada numa ilha, mas tem muito o que ensinar para os quatro cantos do globo nos quesitos liberdades individuais e quebra de preconceitos.

 

Voltando para as reflexões internas, Poliana conta que teve muitos momentos sozinha. “Como a família não conversava muito comigo pelo fato de eu não saber muito inglês no princípio, foi bem difícil. Eu tinha um namorado que estava em outro país na época. Na região não tinha energia elétrica na vizinhança e eu não tinha para onde sair à noite. Em pouco tempo, me vi depressiva. Não conseguia comer, me alimentava uma vez por dia. Foi aí que comecei a dar valor às minhas relações”, ressalta. Poliana conta que essa foi a primeira vez que ela tinha ficado muito sozinha consigo mesma, em contraste com sua vida anterior em Belo Horizonte. “Foi bem perturbador no início e bem difícil. Eu, que sempre tive uma vida social bastante agitada, me vi aprendendo a conviver comigo mesma e a ter que gostar mais da minha companhia. Hoje, eu vejo quão reveladora foi essa experiência. Foi assim que entendi o significado do pensamento de Christopher McCandless, que diz que ‘felicidade só é real quando compartilhada’”, reflete a mineira.
E foi depois de muito tempo tentando lutar contra a solidão que ela se viu na necessidade de se abrir mais e, dessa forma, acabou quebrando mais um preconceito de início.

“Para mim, uma das melhores coisas que me aconteceram foram as amizades com os brasileiros, que, a princípio, relutei bastante devido ao meu propósito de aprender inglês. No entanto, no final, foram essas pessoas que fizeram toda a diferença.

“Dessa forma, pude me abrir mais para viver a Irlanda e essa foi a melhor experiência da minha vida. Volto a repetir que foi tudo muito transformador. Sair da zona de conforto e se propor a fazer algo que você não faria no seu país é algo muito único. Muito certeiro”, relembra.

 

E o que fica? Muito aprendizado e gratidão. Segundo Poliana, o regalo de uma experiência de dois anos se reflete hoje na sua vida pessoal e profissional. Viver a Irlanda e se permitir vivenciar tudo e conhecer pessoas novas equivalem a anos de terapia intensiva. Foi quebra de preconceitos, barreiras e limites. Foi o descobrimento de uma nova pessoa. Um exercício diário e amplo que se fez com o cair da chuva fina e cotidiana da ilha de esmeralda, que se assemelha àqueles banhos que lavam a mente e o espírito. Depois de muito reclamar da chuva e do vento, o que se percebe é que, sem eles, a lavagem da alma não ficaria completa. Lavagem essa que estimula os batimentos cardíacos – que se tornam intensos, e, ao mesmo tempo, leves, com um verdadeiro significado de vida. “Slainte!”. Vivamos a Irlanda!

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras.

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