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Duzentos e cinquenta e cinco toneladas

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A luz da televisão ruim refletia cores invasivas no corpo jovem da mulher morena de pernas grandes, que saiam debaixo do lençol do hospital. Vermelho, rosa, verde… Foram necessárias algumas trocas de cores tocando seu rosto até que eu pudesse identificar a fisionomia marcante daquela mulher: lábios grossos, sobrancelhas definidas e um olhar triste – tão triste que jamais a faria notar que eu a olhava naquele momento íntimo. Após acordar no quarto, era a primeira vez que ela via alguém:

_ Boa noite! Será que você pode abaixar o volume da TV pra mim, moça? Pediu, sem graça.

Dali por diante, eu seria a “moça”, e seríamos parceiras de quarto por uma semana.

Mayra: a mulher triste, do coração pesado. Estaria eu sendo injusta ao criar essa impressão dela? Mas com olhos tristes, uma fala triste e tristes lembranças, a tristeza não engana. Seu coração pesava tanto que eu podia de imediato sentir quanto lhe custavam as palavras. Naqueles dias, a mineira de uma comunidade humilde de Belo Horizonte, me contou o que lhe aconteceu. Primeiro, falou da filha de quatro anos – era a única coisa que lhe importava agora. Internada no hospital há cinco dias, parecia uma eternidade toda vez que aguardava para falar com a menina. E como chorava ao telefone… Tão verdadeira, tão entregue…

_Sabe de uma coisa, moça ? O meu maior medo não é de morrer aqui. Meu medo é do pai tirar a menina de mim! Não gosto nem de pensar… São muitas coisas juntas… Muitas coisas… A gente acha que é forte, mas em determinadas situações a gente vê o quanto a vida é assim, um sopro

Por trás daquele amor com o qual falava da filha, Mayra me contou que tinha 26 anos e trabalhava como agente penitenciária na cidade de Divinópolis, Minas Gerais. Tamanha foi minha surpresa quando me revelou isso. E foi aí que eu vi como eu me pautava pelos estereótipos. Percebi meu preconceito velado e me senti tão pequena.

_Já vi gente morrendo, já vi de tudo, moça, você nem imagina. Já dei tiro no meio da testa. Mas era tiro de chumbo, só pra assustar.

_Mas não fere, não machuca?

_Machucar? Hahaha. Machucar, moça? Machuca não, faz o maior estrago! A cara fica assim, toda ensanguentada, nem dá pra ver nada. Mas, matar, não mata, não. É só pra assustar mesmo.

_Mas por qual razão? Ameaça?

_Ameaça? Eu lá sou mulher de ser ameaçada, moça? hahaha. Não. Eu imponho respeito, elas me respeitam. Esse dia aí do tiro foi rebelião, então eu tinha que conter, né?

Eu, que não sabia nada daquela mulher, me senti interessada pela sua vida e sabia que, apesar do seu aspecto frágil e vulnerável ali no leito, ela tinha muito mais para contar.

_Eu vim parar aqui por causa de um desmaio. Eu estava sentindo um mal estar, uma falta de ar, mas fui trabalhar assim mesmo, não deixo nada me derrubar, não. Aí, na semana passada, no meio do plantão, caí dura, igual pedra, no chão. Fiz um procedimento que não sei qual foi direito e vim para este quarto aguardar um exame que vou fazer no sábado. Agora, me diga: Justo sábado! Quem é que trabalha sábado? Hoje ainda é domingo, tenho que esperar a semana toda para sábado! E domingo que vem é dia das mães… Eu não posso passar o dia das mães longe da minha filha!

Vendo o seu medo de mãe, o que eu senti foi empatia e sororidade em diante.

_Eu comecei a ter esse mal estar depois da separação, sabe, moça. Está tudo muito recente. Não pude pensar ainda no que aconteceu. A gente era casado, juntos há anos, eu pensava que a gente era feliz. Arrumamos nossa casinha, estávamos fazendo tudo assim, simples, mas muito bonitinho, aos pouquinhos… Minha mãe amava ele e, meu pai? Nossa… Não podia nem falar nada porque era igual um filho para ele! A gente faz muita bobagem nessa vida, né, moça? Todo mundo na rua me falava: “Esse homem não te merece!”, até que um dia minha irmã me avisou. Sabe o que eu fiz? Briguei com ela. Duvidei da minha propria irmã! Ele não me dava motivo nenhum! Mas todo mundo falava e eu não ouvia… Eu tava cega! Cega! Você é casada, moça?

_Eu? Ainda não.

_Pois bem, minha filha! Pense bem antes de se casar! Homem não presta! Não existe nenhum homem que preste nesse mundo! Precisa ficar bem esperta!

Eu ri – por fora e por dentro. Esse discurso estava longe de ser novo.

_Até que um dia, minha irmã me trouxe provas. Como eu fui trouxa! Todo mundo, todo mundo tinha me avisado, moça… Todo mundo… Mas foi preciso ela me trazer foto pra eu ver. Minha irmã lavou minha cara, bateu nele e na vagabunda bem no meio da rua, arrancou o cabelo dela… A danada saiu mancando e segurando o cabelo… Hahaha. Eu queria ter visto… (E, no meio do riso, começou a chorar).

Um silêncio… Um choro… Ela olhava para cima, segurava o choro, mordia os lábios, olhava pra mim com a feição de quem se sentia enganada. Eu não entendi muito bem como ela tinha a liberdade de me contar tudo aquilo, mas aceitei, e eu sabia que a vulnerabilidade daquele momento e o conforto que eu transmitia, de alguma forma, para ela, contribuiam para que Mayra ficasse à vontade comigo.

_Mas o pior de tudo, você não sabe. O danado não quis ir embora. Disse que não ia me entregar a casa – a casa que construímos juntos! Disse que não queria separar e que eu não ia sair na vantagem levando a casa sozinha… Eu não fazia questão de casa, moça, mas pensei: Se eu saio daqui, ele traz a vagabunda. E a minha filha, como é que fica? Fica sem casa, morando de favor nos outros?

“Eu não saio! A casa é minha!”, eu disse.

Ele ainda relutou a sair, daí, eu, aos berros, não aguentei, peguei uma faca na cozinha, daquelas bem grandes e pontudas, e disse a ele: Se você não sair por bem, eu te levo picadinho, pedacinho por pedacinho pra casa da sua mãe, numa bandeja! E bati com a faca na parede da sala, do lado do braço dele. A faca foi tão fundo, mas tão fundo na parede, que a ponta dela quebrou no concreto! Você precisava ver a cara dele, moça! O bicho arregalou o olho e saiu de fininho, nunca mais voltou! Quem saberia te contar essa história melhor é a minha filha, que viu tudo.

Eu fiquei imaginando a situação da criança de quatro anos vendo a cena. Pensei também no homem que não queria separar e manter a mulher e a amante. Era tão tensa aquela situação e, em conversa seguinte, Mayra confessou que ele havia mudado depois que ela ficou grávida:

_Eu tinha um corpão de dar inveja, moça. Todo mundo elogiava. Ele adorava! Até que fiquei grávida… Engordei 13 kg, depois mais oito… Não consegui voltar ao meu corpo normal e ele foi se afastando, perdendo o interesse. Eu só fui perceber depois que tudo tinha acontecido. Depois é que eu fui juntar os fatos. Aí a gente se sente um objeto, um lixo.

E sente mesmo. Eu entendia tudo o que ela estava dizendo e sabia me colocar no seu lugar, mesmo nunca tendo vivido sua realidade. Mesmo sendo para mim tão diferentes nossas vidas, muitas coisas que ela falava, serviam não só para mim, mas se encaixavam também nas vidas e nas histórias de muitas mulheres que eu conhecia. No fundo, a sociedade trata as mulheres de uma forma meio homogênea. A gente tenta bastante impor nossas regras, limites e vontades, mas entre um drama e outro, nossas histórias sempre se cruzam.  

Enfim, quando o sábado chegou, Mayra chamou a mãe para ajudá-la, tomou banho e trocou de roupa para fazer o tal exame:

_Doutor, que horas vai ser meu exame?

_Exame? Hoje? Esqueceu que hoje é sábado? Desconversou o residente.

_Mas Doutor, eu chamei a minha mãe pra ir comigo porque o senhor me disse que seria hoje!

_Não, minha querida, não sei de exame nenhum hoje, não. A senhora está enganada. Ainda temos que marcar o seu exame.

Nesse momento, eu vi a mesma fúria que aquela mulher sentiu quando tacou a faca da cozinha no marido. Começou um bate boca com o médico e chorava ao mesmo tempo, dizendo que tinha ficado no hospital por causa do exame e por isso ia ficar sem ver a filha no dia das mães. O médico, visivelmente sem paciência, assinou a alta para ela. Nessa correria, Mayra, sem saber se era bom ou não ganhar alta desse jeito, sem nenhum resultado ou laudo médico sobre seu caso, começou a chorar e a pedir desculpas para o médico, que já ia se retirando.

Foram necessários alguns minutos, mas ela se recompôs e me olhou com um olhar diferente de todos os outros:

_Ai, moça, eu já estou cansada de sofrer, sabe? Pobre sofre demais… Quer saber? Pelo menos eu vou ver a minha filha!

Era o olhar de resignação. Ou resiliência, que sabe que ainda tem muito chão pela frente.

Naquela tarde, Mayra foi embora do hospital. Os olhos estavam mais felizes, o peito já não sei se doía tanto, mas os ombros, eles ainda carregavam o mundo inteiro. Incertezas, dificuldades, julgamentos. Ela sempre iria carregar tudo e ninguém jamais saberia o peso que aquela mulher era capaz de suportar.

Mayra, como a maioria das mulheres, tem força demais, embora nem ela mesma saiba, nem a sociedade reconheça que ela tenha. Mas ela tem. E como tem! Como eu queria dizer isso para ela e queria deixá-la saber que ela era muito maior que aquilo tudo. No peito daquela mulher, os 255 gramas do músculo que batia, pulsariam normalmente de acordo com o exame que estaria por vir, e, ainda mais, carregariam toneladas de uma vida inteira sem fraquejar, preparados para as lutas diárias que viriam a seguir, uma por uma.

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras.

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