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Assédio em Paris 11

alley architecture background barcelona

_Aí o porteiro a seguiu e ficou olhando para ela, com uma cara estranha, encarando do vidro da porta do elevador. E ele sempre fazia isso quando ela chegava de noite sozinha, disse eu.

_Sim, esse tipo de situação é bem comum, respondeu Maria Laura. 

_Assédio, você quer dizer.

_É, assédio, disse ela.

Maria Laura parou um instante. Colocou a xícara de café no pires sobre a mesa e ficou olhando. Aquele vapor subindo até seu rosto, seu olhar pensativo, o pôr do sol que via da janela, toda aquela cena me fazia lembrar uma pintura de Toulouse. Cena bucólica e cheia de fumaça, tal como a história de hoje.

Era uma noite de verão e Maria Laura trazia  por debaixo do braço uma baguete e um molho de ervas, típico de uma francesa. Morando há quase dez anos em Paris, a brasileira de Minas Gerais, aos seus 36 anos, havia vivido muita coisa, porém, como esta história, seria a primeira vez.

Morando no bairro 11 da capital francesa, seu condomínio passava por reformas e, inconvenientemente, o portão principal estava sem o código eletrônico necessário para a segurança do edifício. Ou seja, estava aberto. A permanência de andaimes por todos os lados dava um certo ar de invasão toda vez que ela olhava para fora da janela do seu quarto. Maria Laura tinha a sensação de que qualquer pessoa poderia pular ali a qualquer momento.

O céu ainda estava claro, devido à estação do ano, porém, o fato de ser tarde da noite, fazia com que não houvesse mais pessoas na rua. Isso até então. Subitamente, como um piscar de olhos, eis que surge em uma bicicleta na sua frente um homem alto e forte.

_Você tem fogo?, perguntou a estranha figura.

Sem esperar tal abordagem e com um certo medo, Maria Laura respondeu que não, pois não fumava, e apertou o passo. O homem de bicicleta seguiu então o seu caminho e sumiu na sua frente. Aliviada, ela começou a pensar que não deveria mais sair à noite esse horário, pois morava sozinha e “nunca se sabe”. A psicóloga não sentia saudades do Brasil quando pensava em segurança pública, mas era ciente que crimes de assédio e violência contra a mulher existiam em qualquer lugar do mundo.

Mais adiante, quando procurava na bolsa a chave para o seu apartamento, já chegando na esquina do condomínio, Maria Laura avistou a figura de um homem parado bem embaixo do seu portão. Era o homem da bicicleta. Arrepiada, a mulher começou a balançar a chave e a apressar o passo sem olhar para os lados. Foi então que o homem a abordou novamente à sua frente perguntando se ela tinha fogo. Apavorada, Maria respondeu de novo, séria, que não fumava. Ela não queria deixar o homem perceber que o portão estava sem tranca e que o prédio todo estava em reformas e seria fácil o acesso para qualquer lugar, mas, diante de tal situação, Maria só pensava em sair dali correndo. Não era por menos, pois, o homem não só a havia seguido, como a esperava na frente da sua casa – sabia onde ela morava. Estava ali para isso.

Maria não teve outra saída, abriu o portão depressa e entrou correndo. Subiu quatro andares de escada na maior correria da sua vida, sem olhar para trás. Abriu sua porta e trancou rapidamente. Com a respiração ofegante, olhou cuidadosamente para o olho mágico e quase morreu de susto – lá estava ele.

Foi como se ele tivesse subido há um metro de distância dela. Por um tris ele não a impedira de trancar a porta. Ela ficou apavorada e começou a falar em português pela casa. Ia alterando entre uma voz grossa e uma mais fina, simulando um diálogo. Começou a conversar alto pelo apartamento enquanto ligava para Elliot, seu amigo francês. “Precisava de uma figura masculina para impor respeito”. Enquanto discava o telefone, lembrou que a janela estava sem tranca e que o andaime lá fora possibilitava facilmente a entrada do estranho. Ela começou a tremer e correu para fechar a janela, conversando em português pela casa. Voltou para o telefone e começou a falar baixinho com Elliot em francês e explicar o que tinha acontecido, tomando cuidado para que o invasor não a ouvisse.

Qual foi o raciocínio de Elliot: A dois quarteirões da casa de Maria Laura havia um bar, muito mal frequentado, por sinal. Os caras que ficavam na porta eram daquele tipo que assediava mulheres na rua, sem o menor respeito. Inevitavelmente, ela passava por ele duas vezes ao dia, quando precisava sair e quando voltava para a casa. Sempre sozinha, era alvo fácil de olheiros. Com o prédio sem segurança, era alvo maior ainda da covardia de um bandido. No dia seguinte, Elliot, nos seus quase dois metros de altura, a segurou pelas mãos e a chamou para uma “despretenciosa” volta pelo bairro. Pela primeira vez, pararam no tal bar para tomar uma cerveja. Elliot conversou com os caras dali como se nada tivesse acontecido e, em um dos momentos, trocou uma ou duas palavras com o dono. Maria Laura, sem ter ouvido, perguntou o que ele havia dito ao dono do bar. Elliot simplesmente disse:

_Não se preocupe, ninguém nunca mais vai mexer com você.

E ninguém nunca mais mexeu. Não foi preciso chamar a polícia, ela me disse. Eu certamente teria chamado e foi a primeira coisa que falei a ela, mas Maria me informou que o boca a boca por lá valia muito e que com certeza as pessoas dali entenderam o recado.

Eu fiquei assustadíssima com o relato da minha amiga. Não que fosse algo novo para nós mulheres, e é terrível pensar que não sintamos um choque diante disso, mas porque me remeteu também a um episódio bastante similar que ocorreu comigo no interior da Itália, quando precisei fugir de um homem de bicicleta. Porém isso deixamos para outro dia. O que ficou claro mais uma vez é que as mulheres são alvo de abuso, assédio e violência no mundo inteiro, independente de país, cultura, economia, etnia e educação.

Segundo dados da Fundação Jean Jaurès (de fevereiro de 2018), apurados pelo Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop), 12% das mulheres francesas já foi estuprada ao menos uma vez na vida. A pesquisa foi desenvolvida depois do escândalo de assédios sexuais envolvendo o produtor americano Harvey Weinstein, e, consequentemente, a criação do movimento #MeToo no mundo inteiro.

Ainda, segundo a pesquisa, a maioria das vítimas era menor de idade e, entre 78% e 88% conhecia seu agressor, geralmente era algum membro da família, até mesmo seu próprio namorado ou marido. Mesmo com todas essas estatísticas alarmantes, a França perde para Suécia e Dinamarca dentro da União Europeia, de acordo com a Agência Europeia para Direitos Fundamentais, que apresenta as duas nações como as que têm o maior registro de estupros (dados de 2014). Em 2015, a ONU também inclui Inglaterra e País de Gales no topo desse ranking, comparando a quantidade de estupros por número de habitantes.

O exemplo de hoje ilustra o dia a dia de mulheres do mundo todo e o pavor sofrido constantemente ao realizar tarefas ou atividades simples, como o ato de ir e vir, andar pela rua ou entrar dentro de casa. Infelizmente, ela utilizou da presença de uma figura masculina para poder mostrar a eles que ela não estava sozinha e que eles tinham que respeitá-la.

Quando perguntei sobre a polícia, ela disse que teve medo, que temia um escândalo ou uma revanche, pois não sabia o perfil do homem e se ele tinha amigos que sabiam do seu ato. Enfim. Isso é o que mais acontece. E ainda nos questionam por que insistimos em levantar bandeiras. A resposta é somente uma: enquanto não pudermos todas fazermos coisas simples sozinhas e não precisarmos temer abusos masculinos, não seremos todas livres.

Ah! E sobre a primeira conversa que tive com Maria Laura, antes dela me contar sua história, eu me referia à uma amiga que estava com medo do porteiro do prédio onde ela mora com a família, o que também caracteriza violência. (No Brasil, foram registrados 135 estupros por dia, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2016). Enfim, podemos até falar de Paris, mas não precisamos ir longe, basta usarmos os exemplos que temos bem perto no nosso dia a dia. E para qualquer denúncia de violência contra a mulher, seja ela física, moral, sexual, psicológica, cárcere privado, entre outras, é preciso ligar para a Central de Atendimento à Mulher discando 180. O serviço funciona 24 horas todos os dias, incluindo feriados e finais de semana. O canal é disponível no Brasil e em mais 16 países, atendendo também por e-mail no endereço ligue180@spm.gov.br .

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras ♥️.

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