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O assassinato de Kelly

woman looking at sunset

_Deixo de lado essa prosa, viu? Agora começou a minha novela “Os Dez Mandamentos”.

Com aquela meia luz do televisor eu me lembrava de quando conheci dona Maria. Era sábado à noite quando entrei no quarto de hospital e, lá estava ela. Deitada na cama, virada para a janela aberta. O vento invadia o 11 andar e, lá de cima, ouvíamos o ensaio de carnaval.

_Nunca vi, esse povo não cansa, não? Uma hora dessas pensando em carnaval de novo? Não respeitam nem hospital!

As tranças enlaçadas naquele cabelo cumprido diziam um pouco sobre a mulher loira de olhar alto e decidido. Com um tom sereno e, ao mesmo tempo firme, a senhora de 64 anos não escondia trazer consigo uma força de personalidade de quem já viveu muito. Juntas por quase um mês, sua história de vida me fez entender um pouco  mais sobre aquela que representava uma parcela significativa no nosso país.

Mãe de um filho, ela nunca recebia visitas. Tinha muitos netos e bisnetos, mas era sempre meio solitária.

_Filhos? Filho cresce e não tá nem aí pra gente mais não, menina. Só aparece pra pedir dinheiro! Passei mal lá no meu terreiro e ninguém ficou sabendo! Se não fosse a minha colega pra me ajudar, não tava nem aqui. A minha sorte é que pude vir para cá e estou ótima! Sinto falta de ninguém não, só das minhas plantinhas.

Mineira do norte do estado, dona Maria era servente de escola aposentada e morava no seu sítio sozinha depois da separação do marido.

_Ele até hoje sente minha falta, vai lá de vez em quando comer da minha comida. Tempero, né? Tempero é uma coisa difícil de esquecer e de largar. Acostumei muito mal ele…

Mas não deixo voltar também, não!  Me deu trabalho demais a vida toda, foi um custo… Me batia, me forçava a fazer as coisas, Deus me livre! Tava era com o diabo no corpo! Só Deus! Tudo por causa da bendita cachaça! (E suspirava…)

Olha, eu não vou dizer que eu fui santa, porque não fui, não, viu? Eu gostava de sair com ele, gostava de uma cachacinha de vez em quando, de uma cervejinha gelada… Colocava uma bota e ia pra festa de sertanejo com ele, não tinha pra ninguém! Eu sempre fui muito bonita! Meu marido nunca precisou procurar fora porque eu nunca neguei fogo! Haha! Isso ele não podia reclamar, nem eu!

Dona Maria parou, fez uma reflexão do que falava, e começou a me contar uma outra história.

_Meu menino passa por uma situação que eu nunca ia passar em casa. Há mais dias a mulher dele me disse que ele tava com outra. Veio me pedir pra conversar com ele pra salvar o casamento. Agora você vê! Eu? Logo eu? Eu não tenho que salvar nada, não! Quem tem que salvar o casamento é ela, a mulher! Falei bem assim pra ela “Se fosse homem meu não tava aí procurando mulher na rua! Você precisa cuidar do seu homem!”. Agora você vê, moça, só porque ele queria que ela usasse uns “negócio” lá de sex shop! Uai, se ele tá precisando é porque a mulher dele não deve estar dando conta!

Silêncio.

_Ai, moça, não me olha com essa cara aí, não! Eu sei muito bem o que você está pensando… Sei que tá achando que eu tô errada. Olha, não quero falar disso mais não.

Eu não estava ali para fazer nenhum julgamento daquela mulher e da sua vida. Dona Maria representava, de fato, muitas mulheres pelo mundo que recebem uma educação machista e que, por isso, não têm outra opção e visão além do patriarcado, achando que a mulher precisa servir ao homem e que deve “salvar o casamento” infeliz a qualquer custo. Mas quem era eu para dizer algo?

Ela era uma mulher que, aos 64 anos, já tinha vivido o dobro do que eu, trazia marcas nítidas, embora invisíveis, do quanto a sociedade havia lhe cobrado a vida inteira e à duras penas. Do quanto estar casada e “ser feliz” na cama com o marido significava mais do que o próprio bem-estar longe do alcoolismo, do abuso e das agressões múltiplas.

_Eu demorei muito pra largar o meu marido, sabe? Mas porque eu sempre tive muito medo de ficar sozinha. Porque eu não queria me perder na vida. Porque a gente sabe que é isso que acontece com mulher sozinha, né? E também porque eu não sabia como seria lidar com a dor da falta que minha filha faz…

Aos 38 anos, dona Maria perdeu sua única filha, Kelly, assassinada. A jovem tinha 17 anos e, segundo a mãe, foi morta pelo próprio marido. Motivo: até hoje desconhecido.

_Ela era muito bonita, moça, maravilhosa! Tinha um corpinho lindo, um cabelo preto que batia na cintura…

Dona Maria tinha a voz embargada enquanto falava da filha. Era, sem dúvida, sua lembrança mais dura e delicada. Foram necessários dias dividindo o mesmo espaço para que ela me contasse, com tranquilidade, o que tinha acontecido.

_O marido dela mexia com drogas. Naquela época, todo mundo desconfiava, mas ninguém tinha como provar. Mas, agora me diga, o homem que não tinha nada, aparece com carro, moto, arruma a casa e fala que tá vivendo de bico? A gente não nasceu ontem, né, moça?

Eu queria fazer com que ela não casasse, mas não teve jeito. Ela era nova demais, tinha uns 15 anos quando se envolveu com ele. O homem prometia tudo, tratava ela igual rainha. Ele me dava presente, dava roupa bonita pra ela. Aí ela foi morar com ele e não tive como fazer nada.

Um dia, Kelly me ligou assim, com uma voz meio esquisita… Eu senti que tinha alguma coisa errada. Coração de mãe não mente.  Mas aí ela tava longe, eles moravam em outra cidade e eu disse a ela para vir me visitar. Ela disse que viria… E eu nunca mais vi minha filha.

Eu, ali como ouvinte, sentia uma tamanha solidariedade pelo que presenciava: Uma senhora me contando abertamente sobre os seus conflitos de uma vida inteira.  

_Na época, o marido e ela sumiram um tempão! Depois de um ano, ele foi achado e preso. O safado contou que fugiram porque tava devendo. Essas coisas de dívida de droga, né, moça? Ele disse que ela tinha desaparecido. Eu não acreditei – sabia que ele tava mentindo! Eu movi o mundo pra que a polícia achasse a verdade. Mas quando tem droga no meio não é de interesse deles, né, moça? Eles não iam perder tempo com ela. Para eles, ela não valia nada e era traficante também.  

Até que um dia eu sonhei que ele tinha matado ela e pedi pra polícia achar. Nunca acharam. Mas eu tenho certeza que foi ele quem matou!

_A senhora não acha que podem ter sido os traficantes ou até mesmo durante algum conflito com a polícia? Perguntei.

_Não! Eu tenho cer-te-za que foi ele! Me disse a senhora com olhos de cólera.

Eu vi que ela estava furiosa por eu estar, de certa forma, duvidando do seu depoimento.  Mas eu não estava duvidando. Era tanta coisa envolvida ali: Instinto maternal, intuição feminina, vivência… Seria muita frieza da minha parte.  

Diante de tudo o que aquela mulher já tinha passado na vida, abuso e violência doméstica, aquela sua conclusão foi baseada na vivência e na imagem que o masculino representava para ela. O que eu não entendia era por que, ainda assim, ela subjugava a nora e defendia o filho. Eu jamais iria entender e, àquela altura do campeonato, eu não faria nem esforço para isso. 

_Eu só queria que eles achassem o corpo dela pra eu poder enterrar. Um velório descente pra minha filha, nem isso eu pude dar…  

Dona Maria havia sido internada com dores no peito. Embora vivesse uma vida tranquila no seu sítio depois de aposentada, não tinha uma noite sequer em que ela não pensasse na filha. Desaparecida, morta, sem dignidade. Ela me contou que virou evangélica e pedia à Deus todas as noites para que o descobrimento do corpo chegasse e ela pudesse confortar seu coração. Talvez seja preciso um exercício dentro de si para tentar matar aos poucos o sentimento ruim que tudo aquilo havia tornado.

_Já que a justiça dos homens não funciona, eu conto, pelo menos, com a justiça de Deus!

Ela viria a me dizer, um dia, que, “O perdão é uma palavra muito bonita, mas muito difícil de ser aplicada de verdade”. Talvez, ele ainda continue por muito tempo, impresso nos versículos lidos todas as noites. Um dia, aliviada pelas suas próprias crenças, ela possa sentir o seu peito mais leve, enfim.

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras ♥️.

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