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A vida ribeirinha na Amazônia – o relato de uma sereia

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Criamos um diálogo entre o folclore brasileiro e a experiência da jornalista que acompanhou de perto a vida das mulheres ribeirinhas no meio da floresta amazônica

 

Nossa história começa nas águas do Norte do Brasil, cheias, largas e profundas. Àguas de um bioma que interessa o mundo inteiro – tal como um elixir da existência humana. Estamos no Rio Amazonas e seus afluentes, e viemos reverenciar o pulmão verde do mundo. Com leitos e margens guardando segredos seculares, o rio é um dos maiores patrimônios da natureza brasileira. Até quando? Segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) o desmatamento na floresta aumentou 40% nos últimos 12 meses (dados de agosto 2018). A devastação chegou ao coração da Amazônia, atravessando os estados do Acre, norte do Mato Grosso, sul do Amazonas, parte de Rondônia e oeste do Pará. Até quando haverá a floresta e personagens para contar os seus segredos? Com esse ritmo, sabemos que não por muito tempo. Mas, felizmente, hoje, quem nos conta o inimaginável é a bela sereia Iara, que, na riqueza do nosso folclore brasileiro, vive, em sua origem indígena, nas águas do Amazonas. Iara, do indígena Iuara, que significa “aquela que mora nas águas”, com seus longos cabelos pretos e olhos castanhos, é aqui muito bem representada pela jornalista mineira Marcela Martins, 27.

Marcela (ou Iara) conta que sempre quis conhecer a floresta amazônica de perto, e, por meio do projeto de extensão “Expedição Nortear”, da UFPA, coordenado pelo professor Luiz Adriano Daminello, partiu para uma expedição audiovisual na Amazônia. A jornalista criou uma proposta de oficina de comunicação popular e midiativismo para alunos da comunidade ribeirinha Pedreira, que fica dentro da Floresta Nacional de Caxiuanã, PA. E o trajeto foi longo. A mineira conta que gastou mais de 24 horas de barco partindo de Belém até a base Estação Científica e, depois disso, mais 12 horas até a cidade de Portel, PA. Ainda foram necessárias mais duas horas de barco até a comunidade. “Foi uma experiência nova, muito agradável. No primeiro barco, como se fosse um ônibus de linha, as redes penduradas serviram para que nós passageiros pernoitássemos ali. Eu adorei e era bem confortável dormir na rede, embora pela primeira vez. É  super interessante navegar no rio (são braços do Rio Amazonas que ganham outros nomes), além de uma experiência muito grandiosa. Nas margens você vê a floresta e, como descreveu Mário de Andrade, é “um mundo de águas” numa paisagem linda, muito incrível”, conta Iara (ou Marcela).

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Segundo a jornalista, a proximidade com a floresta é algo encantador, e ela pode viver de forma particular e intensa.  “Os moradores da comunidade têm estórias de animais o tempo todo, como lagartos, macacos, etc, e sabem que existem onças ao redor também. As crianças de 5, 6 anos de idade saem com um facão grande para matar as cobras quando entram na mata. Eu achei tudo isso muito inacreditável. Os animais, em especial, me chamaram muito a atenção. Eu adorava ver os botos e ouvir as histórias de jacarés, que estavam sempre ao redor também.

Toda essa convivência com a floresta, o respeito que as pessoas que moram ali têm e o cuidado sobre onde não pisar, recolher o lixo, educar as crianças sobre os cuidados com a preservação da floresta, desvendar os barulhos,  saber e respeitar a que hora que deve ser feita cada coisa, isso é muito interessante”, conta.

Quer mergulhar nessas águas com a gente? Vem que a Iara te conta!

Sou a sereia que dança, a destemida Iara, água e folha da Amazônia

A sereia conta que a bacia do Caxiuanã tem várias comunidades e todas elas têm características semelhantes, algumas com mais recursos, outras menos, e os moradores fazem tudo de barcos. “Eles têm rabetas, que são como um pequeno barco a motor para deslocamento individual, e também barcos maiores, onde vão juntos para as escolas, ou para a igreja. A comunidade faz parte do município de Melgaço, PA, e tem Portel também na proximidade – ambas cidades pequenas, porém com mais recursos, como médicos e negócios. Dependendo do grau de dificuldade, os moradores precisam ir a Belém, que é a capital mais próxima”, relata Marcela. Ela conta que os  ribeirinhos possuem os ítens básicos na comunidade, como escola, transporte e alimentos, e o rio é parte integrante da rotina deles, que vivem da pesca e também do extrativismo. “Eles também plantam mandioca, fazem a farinha, e têm acesso a outros produtos de consumo que vêm da cidade por meio dos barcos. O almoço padrão é o açaí, que é a base da alimentação local, farinha de mandioca e um peixe”, conta. 

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Segundo ela, uma coisa que lhe chamou a atenção foi o fato das casas de palafitas serem muito arrumadas, muito bonitas, todas pintadas e decoradas com esmero.  A energia elétrica é fornecida por meio de um gerador à diesel para toda a comunidade com cerca de 20 famílias (este é, por sinal, bastante caro para eles, que dividem entre as casas o valor mensal) e, por isso, só durante duas horas por dia a comunidade inteira possui energia, das 19h às 21h. Nesse período, alguns ligam a TV e assistem às novelas e telejornais, depois muitos se recolhem para dormir. As casas até têm camas nos quartos, mas são meramente decorativas, pois eles gostam mesmo de dormir nas redes. (Para Marcela, foi uma experiência deliciosa). “No dia seguinte, as pessoas acordam com o nascer do sol e o dia parece durar 80 horas… Tudo passa devagar e leve.

O mais grandioso era conversar com as pessoas e ouvir suas histórias de vida. Vi que era muito comum o hábito de ir de casa em casa para fazer uma visita”, relata Marcela. 

A sereia conta que ficou hospedada na casa de uma senhora muito querida e, durante esse tempo, dava aulas da oficina para as crianças na escola. A Pedreira é uma comunidade de extensão territorial pequena que derivaram de uma primeira família, e então os moradores possuem graus de parentesco de segundo e terceiro grau. “Eles se chamam por tio, pedem a benção várias vezes, têm um respeito, um laço familiar muito interessante, o local é lindo, a floresta no fundo, o rio… E eles são muito organizados, muito afetuosos, têm muita liberdade, bastante diferente da cidade grande. Como disse, lidam com animais da floresta o tempo todo, entram e saem do rio a toda hora, e é claro que foi maravilhoso para mim estar vivendo tudo isso dessa forma rotineira também”, conta Marcela. Ela diz que percebeu que alguns saíram para fazer faculdade, mas retornaram pelo fato de valorizarem bastante a importância de se viver em comunidade. “Percebi que aquele é o lugar deles, muitos gostam de estar ali e de levar um estilo de vida que só aquele pedaço de chão e rio os proporciona”, conta Iara sereia Marcela. Para ela, a segurança de viver no coletivo e ter sempre com quem contar, é uma sensação que se assemelha  ao conceito de família. Embora o estrito acesso aos bens de consumo e aos tratamentos de saúde, a segurança e tranquilidade são pontos vantajosos em relação aos que vivem nas grandes cidades.

Os segredos das mulheres da floresta

Entre animais, rio, floresta e histórias ouvidas, a sereia pontua a força das mulheres na comunidade que, além de fazerem todo o serviço doméstico, as “manas” limpam o peixe e também quebram o casco e vendem as castanhas (as famosas castanhas do Pará ou Brazilian Nuts).

“As mulheres têm liderança na comunidade em geral e também espiritual. São elas que lideram a igreja local e administram a escola, as questões da comunidade. Se existe desigualdade de gênero, infelizmente sim, pois vivemos em país em que o machismo é muito forte e lá não é diferente, mas vi muita voz e participação ativa delas, sim”, ressalta. 

Marcela conta que as mulheres são bastante respeitadas no geral. “Há uma senhora que cuida da medicina da comunidade inteira, como uma curandeira. Por meio do seu trabalho, vemos que essa é uma tradição passada de mãe para filha. Essa habilidade do conhecimento, de lidar tão bem e de forma maestral com as plantas, da entrega e fé na medicina natural pode ter um ar místico para nós. No entanto, observei que existe, embora talvez nem elas saibam, uma relação bem bonita da ancestralidade, das mulheres citarem as avós e as mães que já partiram, como exemplos ‘essa estória foi contada pela minha avó, essa receita foi feita pela minha mãe’, tudo isso é muito bonito”, conta Marcela sobre o encantamento da sabedoria passada de geração em geração.

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Diante de toda essa divindade que a floresta amazônica significa, A jornalista  faz um apelo para que as pessoas abram os olhos para o Norte do Brasil. “Existem outras realidades, outros mundos que acontecem de outras formas. Estar em um lugar diferente é perceber que existem outras maneiras de estar no mundo.  Não precisamos necessariamente sair do lugar onde estamos. Se as pessoas estão no meio da floresta, por exemplo, e vivem experiências bonitas, coletivas e são realmente felizes ali, de uma mesma forma, nós podemos ser felizes em qualquer lugar do mundo. Algo que levo também depois dessa vivência é o chamado para a conscientização sobre a floresta amazônica, que é essencial para o equilíbrio das águas, das chuvas no nosso planeta. Assim como todos os biomas, a floresta amazônica tem algo muito forte e para mim foi muito importante ver isso de perto e com meus próprios olhos.  Eu realmente percebi que a gente só existe porque a Amazônia está ali para equilibrar tudo, fazendo o mundo respirar.

Voltei da comunidade com essa urgência de falar sobre nossos biomas, sobre a preservação da amazônia”, finaliza a sereia.

Mas ela não para por aí,  e nem se vai. Como caetaneou Bethânia na força da sua voz, “Sou a sereia que dança, a destemida Iara, água e folha da Amazônia”, ela nunca se despede, a sereia fica para sempre eternizada na cultura, no folclore, espalhando sua mensagem de proteção das raizes amazônicas. Só que na nossa estória, “aquela que mora nas águas” não quer enfeitiçar os homens, ela luta para que o Rio Amazonas não se torne nunca apenas mais uma lenda brasileira.  

 

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras ♥️.

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