Determinação Elas pelo mundo Sem Fronteiras Sonhos

E de repente… Um grave acidente há 5700 km de casa!

O relato de uma jovem mochileira que sofreu um acidente de moto na Tailândia e mudou sua trajetória para sempre

 

Limitações existem e nem sempre é fácil conviver com elas. Limitados pelo corpo, demoramos para aprender que o verdadeiro limite está na mente. Aos 27 anos, da capital paulista, biomédica, Danielle Monteagudo nunca foi de ficar em um lugar só. “Desde pequenininha eu ficava vendo nas revistas as fotos de lugares diferentes pelo mundo e me imaginava em países diversos. Eu nunca me senti completamente fixa em um lugar, sempre acreditei que a vida tem mil e uma possibilidades e a gente não nasceu pra ficar enquadrada num só espaço”, relata nossa personagem. É com muito carinho que a gente hoje conta a incrível história da Dani.

But first… Mind the gap, menina!

A primeira experiência da Daniele vivendo fora do Brasil foi em 2000, quando morou em Auckland, na Nova Zelândia, aos 19 anos. De espírito livre, amante de praia, sol, natureza e da cultura Maori, Dani ficou um mês viajando de mochila pela Ilha Norte após morar com uma família neozelandesa. “Fiquei muito em dúvida entre alguns países do meu interesse, mas decidi pela Nova Zelândia por ser um país muito seguro, principalmente para a mulher que viaja sozinha. Infelizmente, a gente tem que falar disso. Não é mimimi, como muita gente fala, a gente vê notícias o tempo todo no mundo inteiro. Por lá, encontrei muitas mulheres viajando sozinhas como mochileiras e foi a melhor experiência que eu tive de todos os países que visitei”, pontua Dani.

Com um pouco mais de maturidade e o inglês em dia, Dani escolheu, mais tarde, a Inglaterra para morar. “Sempre gostei de rock, principalmente, e minhas maiores referências são do inglês britânico. Eu amava o sotaque e, a possibilidade de viajar por toda a Europa, foi o meu grande atrativo.

Além do que, a gente conhece imigrantes do mundo inteiro e isso me ajudou muito dar um upgrade no meu caráter. Tolerância e respeito começam com o conhecimento do outro”, conta.

Meu irmão morava em Manchester, mas não queria morar com ele. Acredito que, quando você sai da sua zona de conforto, acaba se conhecendo mais”, reflete. Dani morou em Brighton, cidade litorânea próxima de Londres, onde a galera é bem “open mind”. Mas foi durante o período que morou em Bournemouth, que aconteceu o acidente que mexeu, um pouquinho, com a história da nossa menina.

Quatro semanas para o resto da vida

A menina de São Paulo sempre foi muito bem humorada e animada. Com a Dani, tempo ruim é sinônimo de filme no sofá com os amigos! Depois de um período trabalhando na Inglaterra, praticante de artes marciais, ela escolheu a Tailândia como destino para as férias, em busca de um curso de Muay Thai. “Já tinha participado de algumas competições e fiquei com vontade de viver o esporte no seu país de origem”. Porém, quando chegou na Tailândia, as dificuldades começaram a aparecer.

“Metade dos meus problemas na Tailândia se resumem em confiar nas pessoas erradas”, relata.

Dani conta que tinha ido com a promessa de estadia cedida por um conhecido, mas que, quando chegou no aeroporto, a pessoa sumiu. “A minha sorte é que eu sempre tenho um plano B e isso é sempre muito importante para qualquer viajante. Eu tinha ‘bookado’ um hotel se acontecesse algo”. Vale ressaltar que, segundo Dani, uma característica da Tailândia é que lá todo preço é negociável, então, na maioria das vezes, é melhor fechar a acomodação e a escola por lá mesmo.

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Daniele em uma das suas viagens a Luxemburgo

De acordo com Dani, ela ficou acomodada em uma zona um tanto distante e, na Tailândia, é muito comum as pessoas utilizarem motos e mobiletes para se locomoverem. Ela conta que, um dia, estava na praia e conheceu um grupo de brasileiros que a ajudaram a alugar uma moto para o resto daquela temporada. “Fiz amizade com esses caras e a gente sempre se encontrava por acaso também, porque estávamos na mesma região. Então, numa noite, eu estava saindo para jantar e, ao fazer uma curva com a moto, perdi o controle. Foi fratura exposta a 90 graus, quebrei a perna em três partes, parei o trânsito. Chamaram a ambulância”. A partir daí, os dias pareciam intermináveis e a experiência foi regada a muita coragem e força. Já no hospital, Dani conta que esse grupo de brasileiros que ela conheceu estava lá quando ela deu por si, ela não sabia como. “Um deles falava tailandês e conversou com a equipe que estava no hospital. Na verdade, no dia do acidente não tinha médico, era um domingo.

Como eu sou da área da saúde, eu tinha certeza que se não fosse operada, poderia perder a perna. A enfermeira me disse que teria que amputar.

Foi um desespero muito grande até o médico chegar. Quando ele enfim chegou, disse que ia fazer o possível para me ajudar, mas que não sabia qual seria o resultado”, conta.

O que era um momento de aflição ficou ainda pior depois da cirurgia. Como não falava Tailandês e não sabia dos trâmites do hospital, Dani deixou sua bolsa com esse grupo de brasileiros. “Eu sei que, quando voltei do bloco cirúrgico, estava sem minha carteira, sem meu celular, sem nenhum documento que estava na minha bolsa, nenhum! A minha sorte é que, antes da cirurgia, eu peguei o celular emprestado de um desses caras e consegui ligar para o meu irmão na Inglaterra. A ligação caiu, foi muito rápido, mas ele, no entanto, pela internet, conseguiu da Inglaterra localizar o hospital que eu estava e conversou comigo, e pude, enfim, contar o que tinha o que tinha ocorrido. Eu não sei o que aconteceu, mas os caras não foram ao hospital me devolver meus documentos, meu passaporte e celular. Fiquei três dias incomunicável. Estava somente à base de medicamentos, num hospital precário, onde ninguém falava inglês. Foi horrível!”, relembra.

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Fotos do arquivo pessoal da jovem durante sua recuperação

Segundo Dani, ela só conseguia contato com alguém quando seu irmão ligava para o hospital. Ele, que estava na Inglaterra, contatou o consulado brasileiro na Tailândia, que conseguiu localizar a pessoa que mantinha os documentos da garota. De acordo com Dani, dois dias depois, o rapaz compareceu ao hospital e devolveu seus pertences.

No dia seguinte, o médico ia dar alta à jovem, e foi aí que apareceu um novo problema. “Eu não podia sair sem pagar o hospital, porque viajei sem seguro. Isso é um risco muito grande e é muito importante ressaltar. Do Brasil, minha mãe fez o depósito para a conta do hospital”, relata. Dani ligou para o irmão e pediu para que ele comprasse então, uma passagem de volta para a Inglaterra. O médico passou para ela as restrições do voo de longa distância e, sem conhecer ninguém de confiança e sem saber a quem recorrer, a garota ligou para a recepcionista do hotel que estava hospedada para poder levar uma roupa para o momento que deixasse o hospital.

E a saga ainda não parou por aí. No dia da alta, que também era a data do voo de volta, devido ao fuso horário com 10 horas de diferença e à burocracia bancária, o pagamento do hospital ainda não tinha caído. “Eu estava desesperada! Não podia perder a passagem de jeito nenhum. Já havia gastado muito com hospital e tudo mais. No entanto, o hospital disse que nao me liberaria enquanto não caísse o dinheiro. Eu, com o ferro na perna, cheia de pinos, cheia de dor, faria uma viagem de mais de 11 horas de voo com escala em outro país diferente e estava presa no hospital por causa de burocracia. Aí então, eu não tive outra alternativa, olhei para a única peça de roupa que eu tinha – que era um vestidinho curto que a moça do hotel me levou, mesmo assim porque eu a tinha pagoentão, peguei as minhas coisas e saí do hospital com o vestido curto de festa, meu passaporte, celular, documentos e… sem sapato!”, conta.

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Daniele durante o período em que teve que usar a muleta e os aparelhos

Por estar em cima da hora do voo, Dani deixou a mala no hotel. “Quando cheguei no aeroporto, me perguntaram se eu tinha a autorização do médico, e eu disse que sim. Não tinha nada, mas estava louca para ir embora! Nesse meio tempo, o hospital tinha ligado para o meu irmão dizendo que iam mandar um carro me buscar de volta. Mas eu estava segura, eu sabia que minha mãe tinha efetuado o pagamento. Não poderia ficar mais um dia naquele hospital.

“Entrei no avião e vim embora. Fugi!, conta.

A parte mais surreal – sim, ainda tem parte surreal – foi quando ela desceu na escala na Arábia Saudita. “Me lembro quando uma mulher de véu veio conversar comigo e eu, dopada de morfina e outros remédios, estava com aquele vestido curtinho de balada parecendo uma louca e sem sapato!”, recorda Dani, sem jamais perder o humor.

Depois desse acidente, Daniele ficou dois anos com muletas. No entanto, ela conta que tentou, ao máximo, não deixar isso influenciar na sua rotina. “Não parei de trabalhar, ficava sentada com o pé para cima. Tive muita ajuda da comunidade brasileira para me levar para o trabalho, então eu guardo isso com muito carinho, sei que muita gente me ajudou, tenho muita gratidão por tudo. Muita coisa mudou, fiquei esse tempo sem andar e viajar, o que me doeu bastante”. Dani ainda ficou mais dois meses internada na Inglaterra por conta de várias cirurgias para correção da sua perna. “Foram 11 no total. Ninguém sabia o que fazer no meu caso, foi bem atípico. Mesmo com o ferro na perna eu trabalhei, vivi minha vida, saia normalmente, senão eu sabia que podia ficar maluca”, ressalta.

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Danielle em uma de suas viagens após o acidente. Arquivo pessoal

Depois do acidente, Dani perdeu o movimento do pé, mas ela sabe que foi uma vencedora. Quando fala que o fato mudou sua vida para sempre, ela quer dizer que a vontade de viajar, só aumentou!

“A gente passa a ver o mundo com outros olhos. Hoje em dia eu estou bem. Mesmo depois dessa experiência que eu tive, continuo na busca pelo que eu quero e o que me faz feliz. Não justifica você ter medo.

Continuo viajando pelo mundo e sempre estou por aí, pela praia, pelas festas, não tenho mau tempo, não. O importante mesmo são as experiências que adquirimos ao longo da vida e essa vontade enorme de desbravar o mundo! É uma doença, né? Sei lá”, brinca, em meio aos risos.

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras ♥️.

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