Entrevista com elas Sem Fronteiras Tolerância e empatia voluntariado

Entre as cores quentes da Tanzânia

O relato surpreendente da brasileira que viveu um voluntariado na África, passando pela cultura massai, solidariedade, costumes diversos, miséria e fome

Tanzânia. A magia das quentes paisagens ganham ênfase entre as praias paradisíacas de Zanzibar e as vibrantes cores primárias da tribo Massai. Berço de fósseis dos primeiros habitantes da terra, a nação, que sofreu com anos de escravidão, colonização alemã e britânica, conta com uma variedade ímpar de cultura originária dos povos e costumes diversos no leste africano. África. Chão de doação dos povos sofridos, da natureza explorada, da cultura tomada. E, em contrapartida, a África nunca pediu nada, doando originalidade para o mundo. E é nesse cenário de doação, favorito dos documentários sociológicos e científico-naturais, que a paulista Flávia Rinaldi, 40, traçou uma jornada de descoberta do que, de fato, só temos noção por meio da vivência. Graduada em Comércio Exterior e, morando na Inglaterra há três anos, ela tomou a iniciativa de dar uma pausa na carreira para realizar o sonho que já beirava dez anos no seu íntimo. Com relatos de cunho social e lições de vida, adentramos no que foi essa experiência incrível de desvendar as mil cores desse país africano!

Estive com Flávia antes e depois da experiência, e, como testemunha ocular, posso dizer o quanto notei a transformação em sua vida. Logo depois da viagem, ela, que havia sumido por não ter acesso ao wi-fi com frequência na Tanzânia, pôde, enfim, me contar como foi tudo. Com um tom de pele super bronzeado, alguns quilos a menos e um sorriso enorme no rosto, a mulher de cachos castanhos havia, dentre outras coisas, aderido ao lema do país, nada menos que… “Hakuna Matata!”. Sim! O idioma oficial da Tanzânia é o Suaíli, usado para criar a frase de quem quer viver numa boa. “Resolvi entrar no clima. Fui para viver, na forma mais intrínseca”, disse, enquanto me mostrava fotos com tranças afro que havia feito por lá.

O amor como se não houvesse amanhã

Quem nunca ouviu o famoso hino de Renato Russo? Provavelmente, na Tanzânia, as pessoas nunca nem ouviram falar, mas o aplicam de uma forma bem verdadeira. Em meio a nossa conversa, Flávia me mostrou uns tecidos amarelos florais que havia ganhado como presente. Uma saia comprida e uma blusa com mangas. A outra peça, em azul turquesa, tinha um significado mais complexo. Ela olhou o pano nas suas mãos e deixou transparecer toda a sensibilidade naquele momento.

“Uma vez, fui doar roupas e alimentos a uma comunidade mais carente da região que fiquei. Algumas famílias não tinham energia, água e dormiam no chão. E o principal, eles não tinham o que comer! Eu havia levado as doações a um lar e, no dia seguinte, inesperadamente, uma senhora foi até a casa onde eu estava hospedada para me presentear com esse tecido típico delas. Ela me deu pessoalmente uma peça de roupa dela como agradecimento! E ela não tinha o que comer… Guardarei essa peça comigo para sempre de coração”, conta.

Ela ainda relata sobre a generosidade de quem tem muito pouco e, mesmo assim, faz questão de dividir tudo o que tem, como é o caso dos nativos de lá. “Isso é algo que me tocou muito. O mundo está perdendo essa parte humana”, reflete.

O sorriso da mulher desconhecida

A paulista conta por que escolheu a Tanzânia. “Queria me relacionar com crianças carentes e morar com uma família no interior do país para viver a realidade de perto. A família que escolhi me cobrava somente U$ 5 por dia para ficar na casa deles. A mãe tinha um projeto de aulas de inglês para crianças e eu ajudava com meu trabalho voluntário, dando aulas para os pequenos, todas as manhãs, de segunda a sexta. A casa da família era grande e Flávia teve um quarto só para ela. Sem energia elétrica e água potável, a mãe comprava água mineral para a moça tomar e não a deixavam beber a deles. No banheiro, um cano saia a água e o vaso sanitário era no chão. Flávia conta que estava ali para abraçar as novas experiências. “As crianças me viam usando fio dental e escovando os dentes todos os dias e começaram a querer fazer o mesmo”, revela.

Um episódio singular foi quando apresentou chocolate para elas pela primeira vez. “No mercadinho não tinha. Eu havia levado um na bolsa e dei para elas. Aquilo foi uma experiência única, elas amaram!”.

No entanto, essa questão do chocolate representa algo a mais e fala muito por si só. Por meio desse relato, Flávia confessa um certo arrependimento. Se eles não conheciam e eram felizes assim, por que apresentar aquilo considerado supérfluo e inacessível? “Não, o chocolate não era necessário. Se você não conhece o além, sobrevive muito bem sem precisar de consumismo”, reflete a paulista.

Algo que a impressionou bastante foi o fato de, sem aparelhos eletrônicos e energia elétrica, as crianças brincarem na rua o tempo todo. “Quando me viram pela primeira vez, era como se estivessem vendo um fantasma na frente delas, mas, a partir do momento em que eu dava um sorriso, elas também sorriam e acenavam com as mãos. E, todos os dias quando eu ia para a escola, as crianças me esperavam para me ver e gritavam “mulher branca, mulher branca!” e, enquanto eu não virasse e acenasse, elas não sossegavam. Elas queriam me dar a mão o tempo todo porque eu era uma pessoa diferente”, relata. Na escola, Flávia aprendeu a dançar o animado ritmo local e conta o quanto foi difícil para ela. “É como aprender a sambar (risos). Impossível da noite para o dia! Eles têm muito gingado e alegria!”. Ela conta que as crianças riem muito, e, os adultos, não ficam atrás. “Tentei equilibrar o balde na cabeça igual às mulleres e fui a atração no mercado. Claro que não consegui dar um passo, deixei o balde cair e todo mundo quase morreu de rir”, relembra em meio aos risos.

De cabeça e coração abertos para o novo

Segundo Flávia, na hora das refeições, os adultos se sentavam à mesa e esperavam os pequenos servirem a todos. Depois, as crianças iam para o chão da cozinha comer, com as mãos. A menina de 14 anos cozinhava e as outras crianças traziam os pratos e uma bacia com água para lavar as mãos. A criança menor, de 3 anos, também ajudava. Mas, sobre a comida… “Eu adorei as refeições! Tudo muito orgânico e saboroso. Eles têm uma banana verde, cujo sabor se assemelha ao da mandioca que temos no Brasil, cozinham junto a uma verdura que parece a nossa couve, e esse caldo é uma delícia”, conta. Segundo ela, eles não comiam muita carne pois era caro e não se encontravam variedades por lá, e, um outro alimento muito usado era uma mistura de farinha e água. “Você pega a massa com as mãos, faz um bolinho e come com essa verdura verde. Isso enche o estômago e, mais tarde, percebi que era feito para saciar a fome”, observa. Ela conta que eles faziam questão de agradá-la o tempo todo. “No café da manhã eu bebia leite, um chá delicioso e um bolinho de chuva frito na rua, que enrolavam no jornal para levar para casa. As frutas são deliciosas e a variedade é incrível, assim como os vegetais”, relata.

Flávia conta que, nos passeios aos arredores com a família, sempre notava grandes lotes ou extensões de terras desocupadas. Ao perguntar por que ninguém ocupava ou fazia plantio naquela área, a resposta era a mesma.

“São terras da Rainha”, diziam. A rainha, no caso, Elizabeth II, monarca da Inglaterra, a qual possui muitas terras inativas na África e no mundo inteiro.

A paulista ainda conta que gostaria de ter visitado um orfanato de albinos, um grande tabu na Tanzânia. “Quando perguntei a eles se havia algum orfanato de albinos por perto, não se sentiram muito confortáveis e desviaram o assunto. Ainda existe muito tabu em torno de diversos temas, como também o HIV. Muitas crianças já nascem com HIV positivo e não há uma conscientização em torno disso, que ainda é um problema muito sério na África em geral”, conta.

Para a voluntária, sua maior percepção foi do quanto eles são felizes, mesmo vivendo com tão pouco.

“A pureza das crianças, felizes com o que conheciam ali, era demais!

Elas adoravam tirar foto e vê-las na câmera, começavam a rir muito. Era bem interessante!”, pontua. Segundo ela, um aspecto fundamental é viajar com a cabeça bem aberta para tudo que vir, ouvir e vivenciar.

“Uma outra coisa que levo para vida a partir dessa experiência é que toda vez que vou a um churrasco, principalmente no Brasil, onde tem muita abundância e desperdício de carne, me sinto mal, começo a me lembrar da África e das pessoas que não têm o que comer em geral. Aprendi a ter um senso crítico maior a respeito disso”, conta.

O fato é que, não é preciso ir à África ou muito longe para enxergarmos uma realidade diferente que nos faz pensar melhor no nosso consumo consciente.

A mulher na Tanzânia

Segundo a ONU Mulheres, um quarto das famílias na Tanzânia é chefiada por elas e a grande maioria é caracterizada como pobre em recursos, comparada àquelas chefiadas por eles. Níveis de abuso sexual dentro da própria família e assassinato de mulheres mais velhas (muitas vezes por serem acusadas de bruxaria) são altos. Sendo assim, não é de se espantar que, onde Flávia ia, mesmo sem perceber de início, o assédio estava ali. Na expectativa de adentrar mais na cultura delas, a paulista foi à um salão, como a maioria das mulheres lindas e vaidosas que encontrou pelo caminho, e fez tranças em seus cabelos. Nesse mesmo lugar, foi abordada por um homem que queria se casar com ela. “Ele me perguntou se eu tinha dinheiro e me pediu em casamento”, conta.

Nas ruas, Flávia disse que sentia muitos olhares masculinos. De acordo com ela, a família não a deixava sair só de forma alguma, nem na esquina e, sendo assim, ela não se sentia segura para explorar sozinha. Depois da experiência com a família, a moça quis ir para a cidade grande, Dar Er Salaam, conhecer o lado mais moderno. Segundo ela, os homens intimidavam mesmo. Flávia ficou hospedada em um hotel onde o recepcionista lhe dava presentes toda hora. Ok, até aí tudo bem, quem não gosta de uns souvenirs e umas gentilezas? Mas, segundo seu relato, não era bem assim. “Você sente esse assédio em todo lugar. No segundo hotel, o dono pediu meu telefone, queria me encontrar no outro dia”, revela. Ela conta que também foi a Zanzibar, com praias com água transparente e areia branca, bastante turística e com muitos resorts, e foi alertada para não sair após às 8 PM (infelizmente fato que pode ser considerado “comum” em certas cidades do Brasil, não é?). “Eu queria relaxar sozinha, mas sempre tinha alguém ao meu lado. Não tive coragem de sair à noite para nenhuma balada, por mais que quisesse. Recebi convite de nativos, mas não me senti confortável para ir”, conta. De acordo com Flávia, o respeito aos costumes foram fundamentais.

“Eu acredito que isso evita situações negativas. Se habituar como as pessoas se vestem e se comportam é muito importante. E me parece que a Tanzânia é um país que caminha para se tornar mais seguro e tem investido mais em educação”, ressalta.

E, de repente… Um, dois massais!

Flávia, que tinha planos de ir a uma tribo Massai, acabou não conseguindo pelo fato delas se localizarem mais ao norte da Tanzânia, o que significava mais tempo e dinheiro. No entanto, passeando pelas praias de Zanzibar, a moça conheceu dois massais. “Ficamos conversando o dia todo”, conta. Ela explicou que, segundo a tradição Massai, o homem precisa pagar o dote da mulher que quiser se casar, como uma forma de provar à família da noiva que é capaz de prover uma nova família. E, foi aí, que Flávia foi pedida em casamento na Tanzânia pela segunda vez! “Um deles me contou que precisaria de 15 vacas e que já tinha 10. Me perguntou se eu poderia ter mais cinco para mostrar para família dele e, assim, poderíamos nos casar’, relembra. Essa foi apenas uma das conversas com os massais, que iam todos os dias às praias de Zanzibar ganhar algum dinheiro com o turismo. “Os massais têm ainda uma tradição muito forte, mas que se desvanece aos poucos. Fiz milhões de perguntas para eles, que respondiam a tudo e ainda queriam saber sobre o Brasil. Foi super interessante”, conta Flávia, que pode, assim, fechar com chave de ouro sua estadia no país.

“Queria ter ficado mais. Há muito o que se explorar na Tanzânia e arredores!”, conta.

Quem sabe o que mais se esconde por trás das ondas laranjas de calor da Tanzânia? Talvez ali, tentando encontrar mais cores, tentando se doar, Flávia tenha se encontrado. Como um aceno de mão para as crianças que esperam todos os dias o sorriso da mulher desconhecida, uma peça de roupa pessoal dada como agradecimento, um sorriso de quem dá sem receber. Doação, no seu significado mais amplo. É… A gente ainda tem muito o que aprender com a África!

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras ♥️.

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