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Lugar de mulher é na rua – as hermanas na street art

Irene Lasivita
Irene Lasivita, Argentina

Mulheres encontram seu lugar nos espaços urbanos e expressam por meio da arte questões políticas e sociais, como a desigualdade de gênero e a representatividade das minorias

 

Arte de rua. Arte na rua, arte onde ela quiser estar. A street art é um convite para olhar para a cidade com mais atenção e perceber que, assim como os muros e as paredes não estão esquecidos, há muitas histórias que não podem mais ser silenciadas. Milhares de pessoas passam pelas ruas todos os dias e se sentem tocadas ou representadas por aquela manifestação e esse é justamente um dos propósitos das diversas expressões artísticas urbanas.

Para criar um diálogo e ampliar o contato entre a arte e a sociedade, inúmeras técnicas são utilizadas, entre elas grafite, muralismo, estêncil e colagem, e cada um traz sua própria história. Na Grécia Antiga, já se utilizavam formas artísticas para se expressar em público.  O grafite, por exemplo, surgiu nos Estados Unidos, na década de 1970, e, na América Latina, veio na conturbada época das Ditaduras Militares. Antes, uma arte marginalizada, adquiriu com êxito seu destaque nos espaços públicos do mundo todo. Bem antes disso, no século 20, o México já encontrava uma forma de fazer a arte se tornar um instrumento de voz política. Como uma manifestação contra o opressor espanhol, diante do analfabetismo, o muralismo, a arte de pintar sobre as paredes, tornou-se uma estratégia de educação política popular. A técnica ganhou força na ditadura porfirista e na exploração capitalista norte-americana, e, segundo seu mestre Diego Rivera (1886-1957), “é uma arma”, sendo um instrumento revolucionário.

O feminino na arte de rua

As mulheres vêm deixando suas artes espalhadas nas ruas, nos guetos e nos becos do mundo. Após anos na luta pela igualdade de gênero – que, vale ressaltar, ainda está no começo -, o que vemos é um reflexo de uma sociedade patriarcal, no qual a arte feita pelos homens é ainda bastante dominante: o número de homens artistas de rua é bastante superior ao número de mulheres, que nunca excedeu a 10%. Mas, aos poucos, este cenário está mudando. As mulheres têm alcançado mais a visibilidade com seus trabalhos, que, no geral, são pautados em questões de gêneros e representatividade das minorias.

Dessa forma, uma nova geração de mulheres vem redefinindo o street art mundo afora. Um dos grandes nomes é Shamsia Hassani, uma das primeiras e poucas mulheres da arte de rua no Afeganistão. A artista pinta mulheres muçulmanas em burcas azuis, a cor da liberdade. Outros nomes são Miss Van, pioneira do street art feminino, que começou grafitando nas ruas de Toulouse, na França, onde nasceu, e hoje se encontra em Barcelona, cidade onde se estabeleceu como artista. Também temos Faith 47, a sul-africana conhecida por seus trabalhos engajados, e Swoon, que conseguiu levar seu trabalho das ruas para as galerias de arte e museus mais importantes do mundo, como o MoMa, o Museu de Arte Moderna de Nova York.

No intuito de aumentar a porcentagem de mulheres na arte de rua, movimentos e associações no mundo inteiro, ajudam a tornar a participação feminina mais expressiva e em pé de igualdade. Em Buenos Aires, na Argentina, as 170 mulheres da Associação dos Muralistas Argentinos (AMMurA) iniciaram, em agosto, um movimento de expressão da arte  muralista em todo o país. A intenção é promover a participação de 50% das mulheres em festivais, eventos e obras públicas, por meio de competições abertas e com júris rotativos compostos por 50% mulheres. O movimento ainda tem o objetivo futuro da criação de uma rede de mulheres muralistas latino-americanas, transcendendo fronteiras.

Nesse cenário de redemocratização da arte, entrevistamos a argentina Rosario De Schant, 29, engenheira química e pintora artística, mais conhecida como Rodesh. Rosário, que é iniciante, sentiu-se segura com os movimentos a favor da arte de rua feminina e todo esse acolhimento, e pôde assim dar vida à sua obra no México e na Espanha. Ela comenta como o muralismo está bastante presente e em ascensão em toda a América Latina. Quando perguntada se vê alguma diferença entre Espanha e Argentina no tratamento da arte de rua, Rodesh é bastante positiva. “Eu acredito que há mais recursos na Espanha e nos países desenvolvidos, por exemplo, o que pode resultar em mais festivais, mais apoio do governo para espalhar a palavra desta forma de arte. Mas, definitivamente, está crescendo cada vez mais nos países latinos”, conta a artista.

Segundo ela, o que incomoda ainda é o fato de algumas pessoas não estarem abertas ao conceito de arte de rua e confundirem erroneamente com pichações, e, por isso, sua arte ter que enfrentar alguma resistência. “A verdade é que o muralismo toma as ruas como uma forma de arte popular. Felizmente, com o passar do tempo, há mais pessoas que acolhem e reconhecem o valor dessa arte”, relata.

Para Rodesh, os projetos que envolvem o muralismo trazem sempre um caráter social, o que muitos desconhecem.

“Tive a chance de participar de projetos sociais onde os artistas levam seus trabalhos para comunidades de baixa renda, a fim de recuperar espaços públicos com luz e cores, permitindo que a arte esteja disponível para pessoas que, de outra forma, não poderiam pagar e ter esse tipo de acesso. As pessoas ficam felizes e são muito gratas por essas propostas”, pontua.

Dejándose mirar, como la Luna

Arte Dejándose mirar, como la Luna (Rodesh)

Sobre o número de mulheres na arte de rua ser ainda menor que o de homens, Rosário aborda o fato da desigualdade de gêneros de tantos anos ainda influenciar nessa questão.

“Vejo que o número de mulheres convocadas nos festivais de muralismo é sempre uma minoria. Eu conheço um caso de uma colega que parou de ser considerada em um evento particular porque ela não era mais solteira. A inclusão de mulheres é necessária tanto na arte em si quanto na questão organizacional/institucional”, revela a argentina.

Quando perguntada sobre o que ainda gostaria de aperfeiçoar em seu trabalho, ela conta que tem a habilidade de fazer sua arte em tinta acrílica, mas que está ganhando cada vez mais prática para dar um passo maior. “Adoraria experimentar com spraypaint, pois te dá agilidade, ótima capa e efeitos legais, mas requer algumas habilidades sérias, então eu ainda preciso de um pouco de prática”, sorri. Mas isso é questão de treino. Ela sabe que para ela, para todas, tanto nas ruas, quanto em qualquer lugar, quando a gente quer, o céu é o limite! (Ou, talvez, nem ele seja).

A arte de rua dispensa as galerias e os museus para estar no dia a dia das pessoas. Seu lugar é no espaço público, no olhar de quem passa a caminho para o trabalho, na pausa para o reconhecimento e para a representatividade. Agora, as mulheres vêm alcançando o espaço que é seu e o nosso desejo é ver e reconhecer o trabalho destas mulheres e nos sentir representadas por estas artistas. Que possamos cada vez mais ouvir o grito das nossas irmãs e acompanhar suas histórias de luta. Quanto mais mulheres ocupando espaços vazios na paisagem urbana, mais nossas vozes serão ouvidas.

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras ♥️.

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