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Au pair – quando o sonho vira pesadelo

Reunimos algumas garotas que, ao contrário da grande maioria, resolveram nos contar suas histórias sem happy ending

 

O termo “au pair”, originário do francês, significa “pareado” ou “igual a”, em uma referência ao trabalho de companhia das pessoas, teoricamente, consideradas membros das famílias para as quais prestam serviço. Hoje em dia, já se encontra nos dicionários a definição de au pair como “ jovem estrangeira, normalmente mulher, que ajuda com o trabalho doméstico ou com o cuidado dos filhos em troca de hospedagem e alimentação”.

Com o intuito de permitir a troca de idiomas e culturas diferentes, esse tipo de programa é muito comum na Europa e nos Estados Unidos. No entanto, diferente da América do Norte, a maioria dos países europeus não possui um programa de au pair nem uma legislação para tal. (Obs: Não são todos. A Inglaterra, por exemplo, possui novas diretrizes a partir de 2018). Desde que a União Europeia foi criada, a não necessidade de visto para se trabalhar, criou uma zona de vazio regulatório das “au pairs”. Isso abriu brecha para inúmeros casos de exploração e abusos.

Esses abusos são relatados por jovens mulheres, com idade entre 20 e 39 anos, que trabalham como babás em troca de hospedagem e algum dinheiro. A grande maioria é de espanholas e, entre as que precisam de visto dentro da Europa, as brasileiras aparecem em primeiro lugar. Para Rafaela Dias, 28, conseguir uma boa família é, muitas vezes, uma questão de sorte. A jovem de Jundiaí, SP, conta que foi para o intercâmbio na Irlanda e viu no trabalho de au pair a possibilidade de juntar algum dinheiro para viajar pelos países europeus.

“É super comum por aqui entre as brasileiras. As famílias preferem as latinas porque somos mais atenciosas, geralmente sabemos cozinhar e somos mais amáveis com os pequenos. A maioria das minhas amigas aqui trabalha como au pair ou child-minder, que é ser babá, sem morar na casa da família”, conta a paulista.

De acordo com ela, a maioria das famílias que recebem as meninas são muito corretas, respeitando o tempo e o espaço da au pair. No entanto, existem muitos relatos e casos de abusos famosos e conhecidos entre elas. “A gente sempre ouve falar de um caso ou outro. Existem muitos grupos nas redes sociais onde as meninas se ajudam e trocam experiências. Isso varia desde as que tinham medo de ficar sozinhas na casa com o pai, até gente que trabalhava muito para ganhar quase nada, sem folga, uma exploração mesmo. Graças à Deus, eu sempre tive sorte, nunca tive problema e tenho certeza que vou levar a família que moro com muito carinho para sempre na minha vida”, relata.

Mas essa “sorte” não é para todas, infelizmente. Gabriela Mendes, 24, mineira de Ipatinga, conta que se sentiu bastante explorada ao longo do período de seis meses que morou com uma família em Dublin. “Eu fui contratada para ficar com as crianças e ajudar em algumas tarefas domésticas do dia a dia. Aos poucos, me vi fazendo faxina pesada com uma remuneração bem abaixo da média para cleaners. Me sentia muito mal, mas não tinha para onde ir. Até que um dia a mãe me pediu para ceder o meu quarto para uma visita que ela ia receber. Eu não soube o que fazer, afinal, aquela era a minha casa ali. Tive que passar uns dias na casa de amigos para que ela pudesse receber a visita. Foi estranho. Eu cedi porque entendi aquilo como uma troca de favores, mas não me senti confortável, parece humilhante, sei lá. Eles falam que a gente é da família, mas é claro que não somos”, conta.

Para Gabriela, a necessidade faz as meninas se sujeitarem a muita coisa e até mesmo a riscos. “Eu nunca tive problemas maiores com a família, exceto essa questão do salário, que não era justo. Mas eu fiquei sabendo que a au pair anterior a mim havia tido problemas com o pai, que ficou dando em cima dela. Isso foi uma outra au pair vizinha que me contou. A gente estava sempre conversando, se comunicando, para se ajudar mesmo. Então, mesmo que nada tivesse acontecido comigo em relação a abuso, eu sempre ficava com o pé atrás. Uma vez, sabendo que estava só eu e o pai da família dormindo em casa, eu não consegui pregar o olho à noite. Dá, sim, um medo, é normal. Faz parte da cultura de toda mulher, infelizmente”, relata.

Já para a mineira Poliana Bittencourt, 30, o desafio de ser au pair teve ainda uma característica diferente – o isolamento. Ela conta que foi trabalhar em uma cidade do interior irlandês, Connemara. Lá, a moça não tinha vida social, amigos e lazer. O fato de estar só em um país distante, longe de todos e ainda com a barreira da língua, gera muitas inseguranças. Segundo Poliana, existia, ainda, o medo por ser mulher.

“Sempre rola o medo de trabalhar na casa da família e ficar sozinha com o pai. Dá um medo, de fato, uma insegurança, porque a gente sabe que há um risco. Existem estatísticas mundiais e não dá para ignorar”, conta.

Para ela, tudo serviu como uma vasta e intensa experiência de aprendizado, quebra de preconceitos individuais e amadurecimento. Mas é preciso estar sempre atento e não contar com a “sorte”. Para isso, existem os diversos grupos no Facebook onde as au pairs podem compartilhar experiências, dicas e pedir ajuda. Afinal, nunca estamos sós!

 

Quatro semanas entre o céu e o inferno

 

Para ilustrar mais essa questão, contaremos a história da Ju, que compartilhou com a gente a sua “experiência” como au pair na Irlanda.

Tudo começou quando Juliana fez o cadastro em um site de empregos para au pair, desses, que existem aos montes. No site, ela cadastrou seu perfil com uma foto, como um currículo mesmo, relatando as experiências que teve em cuidar de crianças. Para quem estava começando o intercâmbio na Irlanda, não podia correr o risco de ficar sem trabalho e, consequentemente, sem dinheiro para viajar no final do programa. Em poucos dias, foram várias ofertas de trabalho de au pair, algumas no interior do país. Dentre os perfis, uma mulher foi bastante simpática e Juliana compareceu à entrevista conforme o combinado. No dia seguinte, estavam na sala de jantar da família irlandesa  a Ju, a mãe solo, que se chamava Sheena, e as duas crianças louras de olhos azuis, um menino de seis e outro, de quatro anos. Tudo parecia em harmonia, o quarto de Juliana era um dos melhores da casa, muito amplo, com uma lareira, muito melhor do que o que ela estava acostumada no Brasil. O trabalho era levar as crianças na escola, buscar à tarde e brincar com eles depois do dever de casa até a mãe chegar do trabalho. Sem tarefas domésticas, sem muitas obrigações. Parecia perfeito!

E foi, pelo menos nos três primeiros dias. Juliana ia para a escola, voltava, estudava, buscava as crianças e ficava com elas até a mãe voltar. A garota ajudava nos afazeres da casa, afinal, ela estava morando lá e não custava nada. Ju tinha muito respeito e empatia por aquela mãe que soube criarmos dois filhos sozinha e queria ajudar. Até que um dia, Sheena pediu a ela que ficasse com as crianças uma noite para que pudesse sair com suas amigas. Juliana, claro, topou, afinal, ela morava na casa, eles eram bem legais e ela pensava que podia se sentir da família. Mas Sheena não voltou. Era de madrugada e as crianças não dormiam, choravam querendo a mãe, que não atendia ao telefone. Todos tinham que estudar cedo no dia seguinte. Finalmente, às 3h da manhã, a mulher anunciava sua chegada e as crianças desceram as escadas gritando “Mamãe! Mamãe!”. Sheena cai no chão, embriagada, e as crianças estão em volta. Juliana tenta ajudar a mulher, que  grita com ela. Ju então pega as crianças para subir para a cama, e a mãe grita novamente “Você acha que eu não sei cuidar dos meus filhos?”. Todos sobem. Em alguns minutos, todos dormem, menos Juliana.

A cena anterior seria o pior cenário que Juliana teria vivenciado ali, até então. A partir daí, as coisas só pioraram – a porta do quarto de Juliana não tinha mais a chave. Ela perguntava a Sheena, mas ninguém sabia onde foi parar. Os sentimentos começam a mudar. Seu guarda roupas está revirado, seus pertences em lugares diferentes. Juliana, com medo, começa a procurar emprego no mesmo site. Outra noite, a chefe pede para que ela durma com as crianças de novo, e na seguinte, de novo. Juliana percebe que Sheena é alcoólatra, e sente pena das crianças. Sente compaixão da mãe, mas não concorda em ser explorada, afinal, ela também é estudante e precisava dormir e acordar cedo, além de ter direito às suas horas de folga dentro da “casa trabalho”. Mas o diálogo com a chefe não existia, Sheena não respeitava mais Juliana, a porta do quarto continuava sem chave, as pessoas entravam o tempo todo sem bater, e Juliana estava vivendo um pesadelo. Ela acorda cedo, fica o dia todo com as crianças, não tem tempo para ela e ainda está sem receber o salário há uma semana.

Tudo vai mal. Finalmente, Juliana consegue um dia de folga e sai com seus amigos. Na balada, resolve que realmente precisa sair da casa da família e que vai pedir demissão. Quando pega o telefone, distraída, vê inúmeras ligações de Sheena e mensagens de texto perguntando a que horas ela voltaria para casa. Juliana responde que está de folga conforme o combinado. Sheena responde que se ela não voltar, ela vai perder o emprego. Juliana ignora e fica com seus amigos mais um pouco, afinal, ela estava há dias sem folga e era o mínimo que poderia fazer por si mesma. Na volta para a casa, já pensando na conversa que teria com Sheena, Ju percebe que a porta da rua está com a corrente dentro. Chove muito, faz frio, e ela está trancada do lado de fora. A garota tenta ligar e mandar mensagem para Sheena, mas a mãe não atende. Ela havia deixado Ju para fora da casa, na chuva.

Apavorada, com receio pelo seu passaporte, seus documentos e pertences de valor que estavam dentro da casa, Juliana liga para seus amigos pedindo ajuda. Eles a aconselham a esperar e ligar para a polícia. Depois de quase uma hora, Sheena abre a porta, embriagada, e diz palavras de baixo calão para a moça. Juliana entende a situação e, para não discutir, diz a ela que prefere que conversem no dia seguinte. Sheena não a respeita, insulta a garota incessantemente, até que Juliana chega no seu limite e diz que vai dar dez dias para que ela encontre uma nova pessoa para cuidar das crianças. Nesse momento, Sheena transborda fúria em seus olhos, sua boca e sua pele, e dá o ultimato da sua agressividade

“Você tem até amanhã às 7h da manhã para deixar essa casa!”

Aquela demissão podia ser um alívio, não fosse o clima de briga, raiva, injustiça, medo e insegurança que tudo estava envolto. Foi talvez a noite mais apavorante de toda a vida de Juliana. Ela tremia e sentia os dentes se batendo um no outro de pavor. Passava tudo pela sua cabeça, afinal, a dona da casa estava alcoolizada e Ju estava sem a chave do quarto, com uma desconhecida dentro da residência alheia. A garota mandou mensagem para seus amigos com o endereço e nome da mulher, por precaução, e passou a noite arrumando suas três malas para colocar na porta às 7 da manhã. E aquela madrugada nunca terminava. E ela não tinha para onde ir. Mas, naquele momento, qualquer lugar seria melhor e mais seguro do que aquele “lar”

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Essa foi a história da Juliana como au pair. Sabemos que existem experiências muito positivas, mas não podemos negar que também há centenas de histórias parecidas com esta pelo mundo. Se você tem uma delas, entre em contato com a gente. Queremos muito te ouvir!

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras ♥️.

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