autoconhecimento Elas pelo mundo Natureza Resiliência

Do México ao Canadá – Atravessando os Estados Unidos de mochila

O relato da jovem que completou os 4265 km da rota Pacific Crest Trail e mudou seu conceito de substancialidade depois de uma jornada mochileira por cinco meses na natureza selvagem

English Version

Depois que escolhemos um caminho, muitas vezes é comum sentirmos uma incerteza se estamos fazendo a opção certa. Você, por exemplo, já pensou em largar tudo em busca de um novo sentido para a sua vida? A nossa “sem fronteira” de hoje sim, e parece estar habituada a transições. Há 18 anos, sua família largou a vida na Argentina devido o emprego do pai e foi para os Estados Unidos. No dia do seu casamento, durante o discurso, seu pai disse que, quando ela era criança, costumavam passar as férias no litoral da Argentina, e, aprendendo a dar os primeiros passos, a pequena temia tocar os pés na areia da praia. O que ele não sabia é que, mais tarde, aqueles pés seriam o suporte da mulher corajosa que ela se tornara, e que atravessou de ponta a ponta o país que hoje é seu. Sim, ela atravessou os Estados Unidos a pé, do México até o Canadá, pela borda do Pacífico – a Pacific Crest Trail. Se você já assistiu ou já leu “Wild”, de Cheryl Strayed, estamos falando da mesma rota de mochileiros. Foram 5 meses e 3 dias, 2650 milhas (4265 km) percorridas, 5 pares de tênis, e uma história incrível para contar – Esse é o relato da Silvina Kotlarek, 28. Quer saber como foi isso? Vem que ela te conta!

Quando foi a última vez que corri livremente?

Tentando escapar do ambiente estressante do escritório em que trabalhava, Silvina olhava para fora da janela do arranha-céu – como se fosse possível sair do caos de Nova York e sua movimentada vida, dentro e fora dos edifícios. Ela sabia que queria mudar algo, mas não tinha ideia para onde ir, nem o que fazer. “Eu precisava de uma pausa e de uma forma de me conectar com o meu interior, pensar internamente e processar sobre onde eu estava na vida e o que queria fazer dela”, conta a mulher, que, na época, aos 26 anos, trabalhava no financeiro de um grande banco internacional, na maior cidade dos Estados Unidos.

Como em Clarissa Pinkola Estés em “Mulheres Que Correm Com Os Lobos”, Silvina se fez a seguinte pergunta: Quando foi a última vez que corri livremente? Envolta em uma nova perspectiva para a sua vida, ela e o namorado, com o qual hoje é casada, decidiram vender tudo o que tinham, pedir demissão de seus empregos, e fazer uma longa caminhada de mochila pela natureza selvagem.

“Começamos a caminhar em abril e terminamos no final de setembro de 2016. A Pacific Crest Trail é incrível. Atravessamos o Deserto del Mojave, no sul da Califórnia, as montanhas de Sierra Nevada, as densas florestas em Oregon e as montanhas de North Cascades, em Washington. Foi definitivamente uma das coisas mais bonitas e recompensadoras que já fiz até hoje”, conta Silvina.

Pacific Crest Trail… here I go!

A jovem conta que o planejamento durou quase um ano inteiro, mas que foi bem interessante, pois ela e o namorado dedicaram várias horas do dia para estudar a rota. “É muito fácil usar desculpas e deixar tudo para o próximo ano, mas é extremamente importante viver a vida ‘agora’. Então, a primeira coisa que fizemos foi procurar todos os equipamentos necessários e calcular as distâncias, quantas milhas por dia faríamos, quanto tempo gastaríamos entre cada pausa para abastecimento, a quantidade de alimentos que íamos precisar, e quanto dinheiro seria necessário para todos os meses. Cada um de nós leu vários livros sobre como mochilar à longas distâncias, que nos deram noções sobre todas as dificuldades, como desafios físicos e mentais”, conta a mochileira, com empolgação. 

 

 

 

 

O ponto de início da Pacific Crest Trail fica na cidade de Campo, na Califórnia, situada literalmente ao lado do muro da fronteira com o México. Silvina conta que as dificuldades do início foram inevitáveis, mesmo tendo treinado bastante antes.

“No começo, andávamos uma média de 18 milhas (29 km) todos os dias, mas então, quando as pernas ficaram mais fortes, o corpo podia suportar mais, começamos a fazer 26 milhas (41 km) por dia, o que é, relativamente, bastante. Nosso recorde foi de 30 milhas (48 km) por dia, e não foi fácil para o nosso físico se ajustar. Porém, quando o fizemos, me senti super bem, saudável e forte, e vi como nossos corpos podem adaptar-se ao ambiente e à situação em que você os coloca”, pontua, feliz pelo seu desenvolvimento.

Tudo de material que ela possuía estava nas suas costas. “É muito bonito vivenciar a simplicidade em que se é possível viver. Tínhamos uma barraca pequena e um fogão leve e simples e, todas as noites, preparávamos a tenda, cozinhávamos e íamos dormir em seguida, pois estávamos muito cansados. No dia seguinte, pegávamos todos os pertences e continuávamos a jornada até a noite. A cada 100 milhas tínhamos que nos reabastecer de alimentos e, a cada 500, realizávamos uma troca de tênis, pois eles ficavam totalmente destruídos. A minha sogra nos enviava pacotes para os postos de coleta por onde passávamos, com tudo o que precisávamos, como curativos adesivos, suprimentos, e, às vezes, uma roupa nova. Como tínhamos planejado durante muito tempo, deixamos tudo pronto e ela postava”, conta, lembrando que nada seria possível sem a ajuda de pessoas queridas ao longo desses cinco meses.

 

 

 

 

 

Os Anjos da Trilha

Segundo Silvina, a coisa mais maravilhosa sobre a Pacific Crest Trail são o que eles chamam de “Anjos da Trilha”. São pessoas que fazem um trabalho voluntário o tempo todo para os mochileiros. “Às vezes você está na trilha e avista um cooler com umas cocas diet e doces que eles deixam pra nós, aí fazermos uma pausa. Várias vezes encontramos pontos com churrasco, comidas e bebidas, onde todo mundo se reunia ao redor, desfrutando das companhias uns dos outros. Também houve pessoas que nos deixaram pernoitar em suas casas. Conhecemos muita gente incrível, todos com uma conexão comum. Haviam também os mochileiros que acabaram a trilha antes de nós e nos esperavam com comida, bebida e meias limpas. Foi realmente mágica a conexão com a comunidade em torno dessa trilha. Tudo isso é tão inspirador que nós também fizemos o mesmo. Quando terminamos a rota na borda do Canadá, voltamos para a trilha e levamos uma bolsa com doces, donuts, refrigerante e água fresca para os mochileiros. Foi muito bom viver essa experiência juntos novamente”, relata.

 

 

 

 

A lição de simplicidade da natureza

Silvina diz que parar para apreciar as coisas simples da vida foi o maior legado dessa aventura.

“O mais impressionante é a natureza com seu encanto. Eu queria fazer uma pausa e encontrar paz interior com meditação, mas ficava completamente maravilhada com a beleza que tínhamos disponível e como é fácil esquecer disso quando estamos trabalhando todos os dias dentro de um lugar fechado. É realmente importante tirar um tempo para aproveitar a experiência da natureza que nos rodeia. Além disso, comecei a dar mais valor às coisas simples. No dia a dia, temos muito materialismo à nossa volta, muitas coisas que são supérfluas. Depois dessa viagem, nos mudamos de cidade e agora moramos em um apartamento bem simples, não é muito extravagante, mas nos faz felizes. Você não precisa de todas as coisas extras que a sociedade nos empurra. Agora, eu, sempre que preciso comprar algo, escolho o ítem não pelo maior ou melhor, mas sim pelo suficiente”, conta, orgulhosa da sua evolução pessoal.

 

 

 

 

Para Silvina, fazer a trilha com a pessoa que mais ama no mundo foi um presente, mas ela aconselha às mulheres que queiram fazer o trajeto e têm algum receio por não terem companhia, a fazerem, sim, sozinhas, pois, durante o verão, milhares de pessoas mochilam no mesmo caminho. “É sempre bom empurrar-se fora da zona de conforto, porque você aprende muito sobre o que você é, sobre algo que normalmente não experimentaria, então eu recomendo: tente algo novo, não deixe a sociedade retê-lo. Seja aonde for, em qualquer país que você estiver, vai sempre haver uma trilha na natureza para ser feita e vai ser incrível. Você aprende muito sobre você mesma, sobre seu corpo e sua mente”, conclui, realizada.

Depois de atravessar um país a pé e percorrer desertos, cordilheiras e florestas, a garota talvez não tivesse tido medo nem mesmo quando era pequena e relutava em colocar os pés na areia. Provavelmente, ela simplesmente estava fazendo uma escolha, como, mais tarde, a que a despertaria para os excessos da sociedade. Porventura, Silvina apenas precisasse atravessar o deserto e ver o que nele encontrava, transformando-se, assim, na livre mulher que atravessa montanhas.

 

 

 

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras ♥️.

3 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: