Empoderamento feminino feminicidio Sociedade Violência de Gênero

Ni Una Menos – Vivas nos queremos. Livres, sem medo

Em entrevista ao Elas Sem Fronteiras, ativista argentina fala sobre a importância e relevância dos movimentos Ni Una Menos e Que Sea Ley, e suas consequências no cenário atual do seu país

 

English Version

O movimento feminista, que sempre conduziu mudanças na cultura, estrutura familiar e política, teve nos últimos anos um novo e significativo capítulo na América Latina. Capaz de influenciar nas políticas de direitos civis e sociais, tem causado, de certa forma, uma unificação de ideais em alguns países como Argentina, Chile e Brasil, uma vez que estes atravessaram situações sociopolíticas semelhantes.

Cansadas de ver os alarmantes números de feminicídio aumentando a cada ano, um grupo de escritoras, jornalistas e artistas argentinas criou, em 2015, o movimento Ni Una Menos” – nem uma mulher a mais vítima de assassinato. Isso porque, apenas em 2014, o número de mulheres mortas foi de 277. A marcha, que se deu em várias cidades da Argentina, Uruguai e Chile, no mês de junho, do ano seguinte também foi desencadeada pelo assassinato de Chiara Páez, 14, que estava grávida, e outras quatro mulheres, incluindo Lucía Pérez, 16, que foi drogada, estuprada e empalada, caracterizando-se como um dos casos de feminicídio mais alarmantes da Argentina.

O Ni Una Menos, que recebeu apoio popular independente do gênero, teve rápido alcance internacional devido às redes sociais. Com participação de mais de 100 cidades argentinas, exigia a redução da violência de gênero, proteção das vítimas, educação e discussão sobre o tema em todos os níveis de ensino. A partir daí, a história muda de figura, e, o que podemos ver é um cenário bem diferente no que se diz respeito à mobilização feminina neste país latino americano. Com mudanças nos direitos civis e sociais, o movimento tem uma força incrível, lindo de se ver!

É neste cenário de força feminina que convidamos a ativista argentina Rosario De Schant para nos dizer mais sobre o quadro feminista em seu país. Senta aqui, toma um chá. Não dá pra perder essa entrevista, mana!

Ni Una Menos e Que Sea Ley

Rosário, 29, engenheira e pintora artística, começa nos contando sobre o Ni Una Menos. Morando em Buenos Aires, ela descreve que, mais do que nunca, o tema é o assunto mais comentado na cidade.

“Em relação aos femicídios em particular, o movimento ajudou a chamar as coisas pelo seu nome: não existe tal coisa como “crime passional” – as mulheres estão sendo assassinadas como resultado do sexismo”, pontua.

Um ponto bastante interessante nos movimentos argentinos é o uso de lenços coloridos como manifestação da opinião e militância, mais forte que no Brasil, por exemplo. Lá, a militância usa mesmo os “pañuelos”: roxo para o Ni Una Menos, verde escuro para o Que Sea Ley, laranja para o Estado Laico, e por aí vai. Seja no metrô, nas ruas e dentro dos estabelecimentos, os lenços estão nos pescoços e nas bolsas s mochilas.

Este ano, a pauta no país vizinho foi o aborto legal, seguro e gratuito, com o movimento “Que Sea Ley”. A artista, que esteve presente na sessão do Congresso Nacional para aprovação do aborto na Argentina, relata como foi.

“Você deveria ter visto todas as pessoas reunidas lá: mães, adolescentes, avós, homens. Todos unidos para apoiar a liberdade de escolha, mas também para lembrar aos políticos que seu poder é emprestado e as pessoas são os verdadeiros donos”, enfatiza.

 

Segundo Rosário, ainda há muito trabalho a fazer em relação à diferença de igualdade entre homens e mulheres. “Eu costumava sentir muita raiva dessa injustiça toda, ainda me sinto assim às vezes. Mas agora eu pelo menos posso ajudar a mudar as coisas e, dessa forma, consigo ver o lado bom também. A opressão que enfrentamos despertou a força mais poderosa: a nossa! A irmandade desse movimento gerada através de classes sociais, etnias, religião e idade, entre outros, não tem precedentes e não será mais despercebida.

Ao contrário de outros movimentos históricos ou partidos políticos, vejo isso como uma revolução baseada na empatia, compreensão e amor: somos diferentes uns dos outros, mas apoiamos o direito de todos serem livres. Este movimento foi gerado por mulheres por causa do contexto, mas os homens não devem se sentir excluídos, pois todos esses valores pelos quais lutamos são por eles também!”, destaca.

Quando perguntada quais os tipos de discriminação já sofreu por ser mulher, Rosário, que também se dedica ao muralismo, se refere também à arte.

“Vejo que o número de mulheres convocadas nos festivais de muralismo é sempre menor. Eu conheço um caso de uma colega que parou de ser considerada em um evento particular porque ela não era mais solteira. A inclusão de mulheres é necessária tanto na arte em si como no lado organizacional/institucional”, releva.

Sobre a questão da disseminação de debates em relação à mulher dentro da cultura latino americana em geral, ela conta que recebeu, por sorte, uma educação diferenciada, que a fez ter mais ciência do empoderamento feminino. “Em casa, meus pais não mencionavam a questão do poder feminino diretamente, mas eles me criaram sempre para que eu pudesse cuidar de mim mesma e me incentivaram a defender minhas opiniões”, conta.

Quando falamos em relação à cultura do seu país e como a sua sociedade tratava o feminismo ao longo da sua criação, Rosário conta que muito veio de como ela mesma observava o mundo. “Durante o ensino médio, “direitos das mulheres” significava para mim ter realizado o direito de votar no início dos anos cinquenta, como eu estudei na aula de História. Só mais tarde, aos vinte e poucos anos, eu encontrava artigos e livros que tratavam desse tópico com mais profundidade e introduzi o conceito “feminismo” para mim. Eu rapidamente me tornei uma defensora disso. Agora, tenho uma definição mais pessoal como diretriz para minha vida do que a que eu costumava ler como resultado da minha própria experiência e do meu próprio caminho, mas acho que isso acontece com todos que tentam integrar uma ideia externa a si mesmo. As mulheres da minha família também não foram formalmente apresentadas aos direitos das mulheres, mas forjaram os valores transmitidos a mim por experiências ou observações próprias”, conta a artista.

Na Argentina a representação feminina na política é considerável se comparada ao Brasil. Atualmente, são 37% dos representantes da Câmara dos Deputados e 40% dos representantes do Senado Federal – números muito maiores se comparados ao Brasil, que possui cerca de 15% e 13%, respectivamente (eleições 2018). Com representatividade, mulheres, automaticamente, conseguem mais direitos. No entanto, no Brasil, com raízes um tanto quanto diversas, a luta é também pela questão do resgate da visibilidade da mulher negra nos atuais movimentos. E é isso que a gente espera, com #Mariellepresente e todas nós sempre atentas e presentes. O debate feminista sobre questões de gênero e políticas públicas para mulheres tem ganhando mais visibilidade nas mídias. Pelo menos nesse período da história, os movimentos feministas não irão passar despercebidos. Com mais visibilidade, ganhamos mais legitimidade e, como disse Rosário, na conclusão da nossa entrevista, “A semente já está plantada no cérebro de muitas pessoas, elas não podem mais ignorar isso. Este é um passo muito importante”, finaliza. O grito já foi dado, hermanas de todos as nações, eles não podem mais nos calar.


Selecionamos algumas canções que são trilha do movimento na América latina. Confira!

Ni Una Menos, versão de “Despacito”

A franco-chilena Ana Tijoux

 

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras ♥️.

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