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Um auto-retrato do câncer de mama

A americana que viu na retratação do feminino por meio da arte, a forma de drenar suas emoções durante a luta contra o câncer mais comum entre as mulheres

English Version

O câncer de mama é o câncer mais comum em mulheres no mundo inteiro, e o segundo câncer mais comum em geral. No Brasil, de acordo com Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima-se que o balanço de 2018 serão 59.700 casos. Cerca de 1,67 milhões de quadros foram esperados em 2012 em todo o mundo, o que representa 25% de todos os tipos de câncer diagnosticados nas mulheres. Nos Estados Unidos, o câncer de mama fica apenas atrás do câncer de pele nas mulheres, e estima-se que, em 2018, tenham sido 266.120 novos casos, de acordo com a American Cancer Society. Se detectado em fases iniciais, em grande parte dos casos, há aumento da possibilidade de tratamentos menos agressivos e com taxas de sucesso satisfatórias. Para aumentar as estatísticas de êxito, todas as mulheres devem ser estimuladas a conhecer seus corpos para saberem o que é e o que não é normal para as suas mamas. A maior parte dos cânceres de mama é descoberta pelas próprias mulheres por meio do autoexame de toque.

Foi mais ou menos o que aconteceu com a americana Caitlin James, de 29 anos, escritora e pintora artística. A californiana foi diagnosticada com câncer de mama em estágio 2 e, a partir de então, as palavras “muito jovem” passaram a ser usadas para descrever o seu caso. Segundo ela, o tumor responde ao estrogênio, o que significa que, para o resto da vida, Caitlin terá que reprimir o hormônio que literalmente a faz mulher.

“A questão sobre tratar o câncer de mama que me consome mais não é a dor, pois, nós somos mulheres afinal, e possuímos uma incrível resignação à dor. A parte mais difícil é o fato de que ele agride a sua identidade, a feminilidade, entre outras palavras, cada passo que o tumor ataca uma parte da sua identidade feminina. No dia seguinte ao meu diagnóstico, minha mãe apareceu em minha casa com incontáveis tintas e telas, e eu comecei a pintar desde então. Pintar, para mim, é como eu procuro transcender essas emoções, que normalmente me dominam”, conta a artista, enfatizando que não se trata de uma pintora profissional e o faz somente como hobby.

“Minha arte é muito pessoal para mim, não considero-me pintora profissional. No entanto, há um tema comum no meu trabalho, eu daria o nome de feminilidade e capacitação de imagens positivas a respeito do sexo. Sexo é algo que nós não falamos sobre e eu encontrei uma forma para explorar o meu corpo e meus desejos na arte. Então o feminino é uma imagem muito comum nas minhas obras”.

 

Quer saber mais sobre como a Caitlin tira forças para dar vida aos seus auto-retratos? Acompanhe a nossa entrevista!

Elas Sem Fronteiras – Usar a arte para expressar seus sentimentos é parte do seu trabalho, mas também uma terapia. Você recomenda às mulheres que enfrentam o mesmo a encontrar uma terapia nas artes? Que outro tipo de técnica você recomenda?

Para as mulheres que enfrentam o câncer de mama, eu realmente recomendo que elas procurem um psicólogo profissional. Acho que isso é incrível, porque essa pessoa vai atuar como seu coaching durante todo o tratamento, e vai te ajudar durante o processo inteiro, porque a quimioterapia leva muito tempo e é bastante difícil para o seu corpo, e você vai sentir todos os tipos de emoções. Então sim, é importante ter uma vida criativa, seja por meio da música ou da escrita, ou de algo que faça você criar, mas também é muito importante ver um profissional da psicologia para te ajudar. Ele pode te dar uma perspectiva externa sobre o que está acontecendo.

Elas Sem Fronteiras – Como seu trabalho como escritora e artista são importantes na preservação da sua identidade?

Como artista e escritora, eu tenho um monte de ferramentas para ajudar a preservar minha identidade ou, como eu deveria dizer agora, para explorar a minha nova identidade que vem sendo criada através deste tratamento. Praticamente tudo é diferente sobre mim agora. Eu pareço diferente, ajo diferente, tenho hábitos diferentes, sou realmente uma pessoa nova e a pintura me oferece uma forma de explorar a estética dessa nova identidade e, como a escrita, me dá visibilidade para explorar as emoções internas mais profundas dessa experiência.

Elas Sem Fronteiras – As mulheres devem ser mais representadas nas artes em geral. Como seu trabalho pode ajudar outras mulheres, ao mesmo tempo que ajuda a si mesma?

Se você está com câncer de mama, você tem todas essas emoções em você. Há esse sentimento de solidão que você tem porque ninguém ao seu redor estará passando pela mesma coisa, ao mesmo tempo. Escrever é uma forma de me conectar com outras mulheres, então estou tentando construir uma comunidade para outras irmãs que estão passando pela mesma coisa.

Espero que minha escrita e minha pintura forneçam um pouco de conforto e saibam que elas não estão sozinhas nesta jornada.

Elas Sem Fronteiras – Como você descobriu o câncer? Como é a vida depois de saber disso?

Eu descobri o tumor quando estava me dando uma massagem no pescoço e, quando eu estava pressionando meus ombros, minhas mãos se depararam com o nódulo que estava localizada no topo do meu peito. Eu soube que se tratava de câncer quase de imediato quando eu toquei, porque era diferente do resto do meu corpo e, a partir daquele dia, tudo mudou. Eu tive que colocar um monte de coisas em espera e lidar com o fato de que eu sou uma jovem de 29 anos, que deveria estar fora para entrevistas de emprego ou festas com os amigos. Deveria trabalhar em minha carreira, ou com hobbies artísticos, em vez de marcar consultas para ver médicos, passar por recuperação de cirurgias, receber injeções, infusões, e tudo isso que, normalmente, pertence ao mundo de pessoas mais velhas do que eu. É muito difícil para mim chegar a um acordo com o fato de ser tão jovem e ter que enfrentar tudo isso. Eu me sinto agora mais velha do que nunca.

Elas Sem Fronteiras – Você consegue identificar se existe uma conexão entre força, paz interior e apoio (familiar e dos amigos) neste momento? 

Força interior é aquela que você canaliza para passar por essas coisas, então é a motivação que você tem para ir para a quimioterapia, é a força que você tem para continuar indo para o seu trabalho, o seu momento de energia que você tem para se manter por um momento tão difícil. Paz interior é você fazer as pazes com o seu tratamento, é a sensação que você tem de continuar sua vida, você tem que se entregar a você mesma, é o que vai acontecer com você. Então, você começa a construir sua vida usando seu poder interior. E então nós temos família e amigos e o apoio deles é absolutamente crucial, eles te colocam bem quando você está pra baixo, eles estarão lá quando você ligar. Você precisa falar com sua família e amigos sobre o que está acontecendo, você tem que pedir ajuda quando precisar, porque eles querem ajudar e eles têm que saber, não podem adivinhar tudo a todo tempo.

Elas Sem Fronteiras – Qual é a mensagem que você leva depois de tudo disso?

De uma maneira positiva, o câncer deixou entrar muito amor em minha vida, como as pessoas que realmente importam têm me apoiado de muitas formas, até mesmo as pessoas que eu não conheço muito bem têm me dado bastante apoio. Eu tenho visto muita compaixão humana.

Eu tenho que dizer que estou tão impressionada com o quão compassivas as mulheres são umas com as outras. Eu tenho estranhas me enviando presentes, tantas pessoas chegando com boas intenções, e esse é o entendimento de uma feminilidade coletiva. Não importa onde estamos no mundo, somos responsáveis umas pelos outras e cuidamos umas das outras.

Elas Sem Fronteiras – O que você gostaria de compartilhar com mulheres que estão enfrentando a mesma situação?

Minha mensagem para as mulheres que estão passando pelo mesmo é bom ter a sua tristeza, seu momento de luto. Está tudo bem estar com raiva, está tudo bem em ter todas essas emoções, mas, o mais importante, é ter alguma positividade em sua vida. Então, para mim, eu mantive essa jornada de felicidade da seguinte forma: eu escrevi, com boas intenções, as coisas que eu quero fazer no futuro, coisas que estou fazendo agora, e apenas coloquei toda a positividade nisso, e foi ótimo! Então quando estou carregada de emoções, eu tenho um espaço para olhar e lembrar disso tudo. A vida é linda e é por isso que estou lutando por ela.

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras ♥️.

6 comentários

  1. Caitlin, eu me orgulho muito de voce.Que fantastica a coragem de se expor!!Penso que o amor que a envolve conseguiu compartilhar tão bem com todas nós,mulheres/maes, filhas, tias, esposas, avós etc a importância do afeto, da empatia para reforçar , um dia por vez, o desejo pela vida!!!❤

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