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31 dias no Caminho de Santiago: o relato de uma peregrina

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O depoimento da jovem argentina que percorreu o famoso caminho europeu e encontrou muito além de si mesma na trajetória

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Quando era criança, aos quatro anos de idade, mais ou menos, me lembro de ser constante a cena em que eu pegava uma mochila, colocava meus brinquedos favoritos e dizia aos meus pais que ia embora de casa e queria viajar o mundo sozinha. Quando, vinte anos mais tarde, esta cena se tornou realidade, percebi que eu jamais viajaria “só”. Depois de muito me perguntar se seria melhor estar só ou ter pessoas por perto, quando eu buscava, em realidade, uma oportunidade de autoconhecimento, a resposta hoje vem fácil: é impossível aprender sozinha.

Vivendo em meio às eternas buscas diárias e à ansiedade moderna, caminhamos pela vida sem perceber a importância e legado daqueles que seguem seus passos conosco lado a lado. Sem prestar atenção na beleza contemporânea, a vida passa, nos deixando o sinal de que somente o presente é real. Tal como em Guimarães Rosa “O real não está na saída nem na chegada – ele se dispõe pra gente é no meio da travessia”. Talvez seja por isso que a palavra “peregrino”, do latim aegros, “aquele que atravessa os campos”, traduza na intensidade certa o nosso tema de hoje.

Ora movidos pela fé, ora pelo contato direto com a natureza, a peregrinação à Catedral de Santiago de Compostela, na Espanha, é, desde o século IX, uma das mais famosas do mundo. São as paisagens incríveis oportunidade de autoconhecimento e retiro espiritual que fazem que, todos os anos, dezenas ou centenas de milhares de pessoas escolham as suas rotas. E são diversos os trajetos entre Galícia, Espanha e França, mas a maior parte liga-se ao Caminho Francês, cuja rota mais popular entra na Espanha na zona de Pamplona (Roncesvalles), encontra-se com as demais em Puente la Reina e segue ao norte da Espanha. O clássico ponto inicial é em Saint-Jean-Pied-de-Port, na França, e, no total, somam-se quase 800 km até Santiago de Compostela, compondo o famoso trajeto que pode ser percorrido em pouco mais de 30 dias.

O Caminho é geralmente feito a pé, porém quem quiser fazê-lo de bicicleta, a cavalo ou de burro também é bem-vindo. Os peregrinos que seguem, pelo menos 100 km a pé ou 200 km de bicicleta, têm direito a ganhar a Compostela, um certificado para quem fez o Caminho de Santiago. E quem exibe a Compostela com alegria é a argentina Fanny Braun, 31, formada em Comunicação e Mídia, que garante ter prestado atenção e aprendido bastante com todos em seu caminho. Após quatro anos desejando viver essa experiência, ela encontrou na primeira oportunidade a chance de passar 31 dias no trajeto único que iria resultar em trocas infinitas por onde andou. Conversamos com Fanny sobre detalhes dessa experiência única. Quer saber como foi isso? Vem que a gente te conta no caminho!

Chapéu na cabeça, mochila nas costas e… partiu!

Eu nunca perguntei a Fanny se ela também colocava a mochila e dizia que ia embora quando criança, mas ela me contou que sempre foi uma colecionadora de lugares e experiências pessoais. A jovem da Patagônia, sul da Argentina, mora hoje na Alemanha, e conta que, desde que ouviu seus amigos contando sobre um caminho que possuía natureza exuberante, não teve jeito – ela teve que colocar o Caminho de Santiago na sua bucket list!

“Eu realmente queria fazer o caminho há alguns anos e, quando me dei conta que teria dois meses disponíveis na minha agenda, comecei a planejar e tudo fluiu muito bem”. A comunicadora cumpriu os 31 dias do percurso tradicional, e relata que foi uma das melhores temporadas da sua vida!

Segundo Fanny, algumas dicas são importantes para quem deseja pegar as rotas, como verificar a previsão do tempo para a época desejada e providenciar a Credencial do Peregrino (encontrada em postos de turismo por um preço aproximado a 2 euros). É importante tentar não levar muita coisa, mas na mochila não deve faltar relaxante muscular, pomadas ou spray para lesões, bem como protetor solar, chapéu, capa de chuva, meias de caminhada, calçado impermeável – tente não estrear nenhum acessório novo no caminho -, e ter sempre a mão o bastão para se apoiar. Depois de preparado tudo isso, o resto segue como o vento e o caminho te leva!

Ninguém aprende sozinho – a importância da contribuição do outro

Fanny conta que começou pelo caminho do norte, em San Sebastian, no País Basco.

“Depois de 400 km ao norte, segui pelo trajeto tradicional, que fica no meio da floresta”.

Ok, mas aí você pode estar se perguntando se ela ficou acampada todos esses dias na floresta. Não, para a alegria de quem não curte acampar, existem vários albergues credenciados por poucos euros em todo o trajeto, e eles oferecem todo o suporte para os caminhantes. Basicamente, o custo de se fazer o caminho resume-se em hospedagem e alimentação – os albergues custam aproximadamente 6€-, e a alimentação pode ser preparada na cozinha e compartilhada com outros peregrinos.

“As pessoas dos albergues te recebem muito bem, e também te orientam sobre o que levar, os lugares por onde ir, além de te explicarem sobre diversas coisas, como rotas onde não seguir. Foi muito bom, eu realmente me senti em casa”

A argentina enfatiza que conhecer pessoas iluminadas foi, sem dúvida, uma parcela positiva para que a sua experiência se tornasse ainda mais enriquecedora. “Eu realmente gosto de dividir com pessoas de diferentes lugares. Tinha gente do mundo inteiro e eu nunca estava só. Quero dizer, se você quer estar sozinha, é uma escolha sua, mas, durante o caminho, você pode trocar ideias com pessoas diversas, dividir experiências.

”É muito importante para você, naquele momento, estar com pessoas assim, dispostas a ajudar e a compartilhar”.

A mochileira lembra que foram essas pessoas que a ajudaram em um momento delicado. “Durante dois dias eu simplesmente não fui capaz de caminhar. Imagine você caminhando durante 10, 15 dias seguidos um total de 25, 30 km por dia? Porque essa é a média que você anda por dia quando faz o caminho. Teve um único dia em que fiz um total de 43 km e isso foi surreal! Depois desse dia, meu joelho não estava bem. A minha sorte é que, como eu disse, as pessoas que encontrei sempre foram muito solidárias e me ofereceram pomada, estavam sempre checando minha pressão arterial, etc. Elas estão sempre ali se você precisa de qualquer coisa, e acabam virando uma família”, relembra Fanny.

Quando perguntada se teve receio de alguma coisa durante os 31 dias, Fanny relata um episódio inusitado. “Teve um momento singular em que senti bastante medo, sim. Estava caminhando sozinha e avistei três cães de porte bravo, então tive receio de passar por eles e dei meia volta, quando um dos animais veio atrás de mim e mordeu meu cotovelo. Eu não tinha nada para me defender e fiquei parada, apavorada, só esperando pelo pior. Por sorte, eles continuaram seguindo o caminho. Esse foi realmente o momento mais assustador da minha vida e, na verdade, eu tenho até uma foto do machucado e não poderei jamais esquecer”, conta em meio a risos.  À parte esse episódio, Fanny diz que não teve medo de nada, nem de ninguém, porque todos ali estavam interessados em observar a natureza ao redor, em meditar.

“O caminho é algo que você realmente curte porque está com você mesma, escutando sua voz interior. As pessoas viajavam por uma razão e estavam todas numa vibe muito boa. Foi incrível conhecer gente tão maravilhosa”.

De certo, o Caminho de Santiago revela muita sabedoria e descoberta interior e seu legado é para toda a vida. “Se você não puder fazê-lo o mês inteiro, se dispõe apenas de um período curto de tempo, faça-o assim mesmo, você vai encontrar pessoas maravilhosas, seres humanos incríveis. Não é fácil caminhar 25, 30 km por dia, e acordar às 6h da manhã todos os dias sem exceção não é simples. Mas quando você dorme nos albergues, por exemplo, o café da manhã é às 7h e, após isso, as pessoas começam a caminhar juntas, e isso é legal – ou você pode caminhar sozinha, se preferir. E isso se torna um hábito diário muito prazeroso e então queremos repetir sempre.

“Depois você sente falta de tudo, com certeza”, relembra sorrindo.

Talvez seja por isso que nos conhecemos melhor quando enxergamos como lidamos com o outro, como interagimos, nossa disponibilidade em ajudar, o despertar da empatia e a oportunidade de compartilhar, de aprender com as histórias e as vivências do outro. Como uma irmandade, uns para os outros, essa é a grande sacada em sair pelo mundo “sozinha”: conhecer pessoas que tenham a ver com você também do outro lado do globo, e ver que existe amor e união aonde quer que a gente vá. Talvez seja isso que Fanny estivesse procurando quando resolveu fazer o Caminho de Santiago. Talvez seja isso que eu também estivesse querendo viver quando, ainda menina, balançava o portão trancado de casa, com a minha mochilinha nas costas. Inconscientemente, eu estava querendo saber se encontraria o amor aonde quer que eu fosse. Hoje, depois de percorrer boa parte do caminho, eu vejo que a resposta é sim. O amor está na gente – semelhante atrai semelhante. ♥️

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Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras ♥️.

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