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Plus size fashion – A representatividade no mundo da moda

Você já se sentiu representada no mundo da moda? Para discutir sobre o merecido lugar de cada uma nesse cenário, entrevistamos a modelo plus size brasileira Ana Bastos

 

A palavra representatividade tem ganhado muita força nos últimos tempos – e que bom! A sua aplicabilidade é que ainda é bastante baixa. Se compararmos na prática as estatísticas de porcentagens raciais e dos pesos e medidas da maioria da população do mundo todo com o que vemos nas mídias de cada país, é fácil percebermos que tem algo muito errado aí. O que aparece nos websites de busca são padrões que não representam, de fato, todas as pessoas, ou, pelo menos, a maioria delas. Mas por que isso ainda acontece? Por que ainda aceitamos imposições genéricas se somos todos diferentes? Você, por exemplo, já se sentiu representada no mundo da moda?

Mergulhando nessas questões, entrevistamos a jornalista de moda e modelo plus size Ana Bastos, 28. Depois de cinco anos morando em Dublin, na Irlanda, Ana sentiu uma grande necessidade de se sentir representada. Mas isso não porque mora fora do seu país – isso veio desde antes, ainda no Brasil.

“No meio de tantas mulheres da moda, digital influencers, quantas são gordas? Quantas não são daquele padrão tipo modelo, e quantas são negras, pardas, com o cabelo crespo?São beeem poucas, e isso me deixa muito revoltada. No Brasil não tem tantas G, GG, negras, de cabelo crespo. E isso em qualquer lugar do mundo, até mesmo nos Estados Unidos, onde a cultura negra é bastante forte também. A verdade é essa: Se eu não me representar, ninguém vai”.

 

E ela tem razão. Pesquisando sobre o mercado plus size no Brasil, ainda que tenhamos modelos plus size e negras famosas hoje em dia, o que se encontra é uma grande maioria de modelos magras e brancas. Isso, num país com mais de 50% de uma população que se considera preta ou parda, de acordo com o Censo 2016. Alguma coisa está muito errada e algo precisa mudar, não é mesmo? Segundo Ana, as pessoas têm vergonha de ser o que são, e ela usa exemplos. “Uma plus size tem 100k de seguidores no Instagram e, as outras influencers, que têm conteúdo igual ou inferior, mas que são magras, têm muito mais seguidores.

“O que mais me entristece é o fato da plus size não seguir a mulher plus size. Por que uma plus size não apoia a outra? E eu falo por mim mesma, pois, por não existir fama em volta disso, eu mesma não conhecia as plus size até pouco tempo atrás”.

Ana, que tem um perfil no Instagram, acredita e muito no poder da representatividade. “Estou entrando nessa para representar. Representar primeiramente a mim mesma e, em seguida, a todas aquelas que se enxergam em mim”, conta a jornalista.

Segundo a paulista, a questão é se sentir bem na pele em que se está, não esquecendo da saúde também. “Não é porque não me importo em ser gorda que não me preocupo em controlar o sal, o colesterol, em ir à academia por motivos de saúde, mas não por estética. Nosso corpo é o nosso templo, então, se quero viver muitos anos, não dá pra não se importar com isso. Se eu quero passar para as pessoas que dá para ser saudável sendo gordinha, então que eu faça isso da forma certa”, conta.

O mercado da moda, embora tenha adquirido avanços nos últimos anos dentro dessa temática, ainda não consegue ver seus pilares na diversidade, e seus padrões sempre obrigam as pessoas a fazerem coisas para caber dentro deles. Isso devia ser o oposto. Se tantas pessoas precisam de roupas com tamanhos diversos, deveria ser o mercado obrigado a se adaptar. Segundo Ana, a mudança ainda está bem devagar. Podemos conhecer modelos famosas, mas não com a mesma fama das que correspondem ao padrão.

“Quando emagreço, fico feliz. Mas, por que estou ficando magra? Não, porque as roupas começam a me servir! Não tem roupa para mim, então óbvio que vou ficar feliz quando for numa loja e as roupas me servirem!

“Mas isso não quer dizer que eu queira mudar quem eu sou, mesmo com a sociedade me dizendo que eu deveria querer mudar. Talvez seja por isso que vejo que não existam tantas plus size super famosas como as mais bem pagas, as magras – simplesmente porque não tem marca que as vistam! Então, como elas vão trabalhar, se não têm produto para isso? Algumas lojas, por exemplo, têm 1G até 5G de roupas da moda, descoladas, que eu gosto de usar, mas, a grande maioria que apresentam uma coleção GG fabricam uma roupa sem estilo ou de senhoras, que parece da minha avó, ou com a padronagem não tão boa. Então é óbvio que vou querer emagrecer, e não porque me sinta feia, mas, justo eu que trabalho com moda, vou andar mal vestida?”, pontua a paulista.

Nesse contexto, Ana revela que precisa se virar. Como no episódio em que tinha uma festa de casamento para ir ao qual o dress code era black tie, ou seja, vestido longo, e ela não encontrou nenhum para comprar do seu tamanho. “Eu pensei ‘tenho as opções: vou deixar de ir no rolê  que estou muito à fim, ou vou tomar laxante para caber melhor nos vestidos, como eu fazia antes?’. Não, não vou fazer mais isso! Então montei um look com uma calça pantalona e um blazer, uma blusa de decote fundo e fui. Foi maravilhoso, fui bastante elogiada e assim mostrei que todo mundo pode. “Já vi muitas amigas minhas chorando, deixando de ir a lugares porque não tinham roupa, e eu fiz essa situação mudar e por isso fiquei tão feliz”

”Se mais pessoas dessem a cara a tapa e mostrassem quem são verdadeiramente, sem querer passar a falsa imagem de que a vida é perfeita, então acho que isso poderia afetar positivamente a vida de muitas mulheres. Serão menos sentimentos de inferioridade”.

Para ela, a internet tem um grande papel que ainda precisa ser desempenhado e, dentro disso, ela tenta fazer a sua parte, e espera poder mudar a vida de muitas mulheres, como muitas mudaram a sua para melhor. “Eu deletei muita gente que seguia, mulheres com falsa imagem de vidas perfeitas, com jóias e sorrisos, e pensei: ‘por que vou ficar com esse bando de gente que me não me acrescenta nada?’. Digo isso porque quando você começa a ver esse mundo toda hora, passa a se sentir inferior, e isso te afeta negativamente sim. Deletei todas as que não me acrescentavam e coloquei gente que me coloca pra cima, que mostra que a vida é para todas”, finaliza. 

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Elas Sem Fronteiras ♥️.

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